sábado, junho 09, 2007

Estudar os Clássicos (1): Grego

Os Estudos Clássicos têm longa tradição em Portugal, sendo uma área de estudos considerada, desde remotos tempos, basilar. O curso de Filologia Clássica fazia já parte do currículo do Curso Superior de Letras, fundado em Lisboa por D. Pedro V em 1859, e antecessor da actual da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, aquando da sua inauguração.
Apesar disso, os Estudos Clássicos são pouco considerados pela sociedade portuguesa, classes educativa, científica e política incluídas. Primeiro, porque como o Latim está intimamente relacionado com a Igreja, é considerado língua de padres e de gente católica; segundo, porque da actividade científica produzida pelos nossos investigadores pouco se vê.
Falta visibilidade a muitas iniciativas de partilha de saberes (encontros, colóquios, congressos), mas falta muita obra. Assim, lembro que só recentemente vieram à luz traduções integrais de obras fundamentais da literatura antiga: Odisseia, Ilíada e Eneida. Só agora começou a sair uma tradução moderna das Metamorfoses de Ovídio! O mesmo se diga para a Arte de Amar e os Amores, do mesmo poeta.
O volume de bibliografia que se insere na temática línguas e literaturas clássicas, em países como o Reino Unido, França, Estados Unidos, Alemanha ou Itália, é esmagador. No entanto, e ainda que — repito — os Estudos Clássicos sejam bastante antigos em Portugal, entre nós, pouco ou nada se produz: e o que se produz é, em geral, básico e de fraca qualidade.
Várias são as explicações para que isto assim seja, mas não é minha intenção dissecá-los.
No meu primeiro texto neste espaço para que tive a honra de ser convidado, quero dar ênfase aos muitos problemas com que um indivíduo que pretenda seguir esta área de estudos depara, fazendo uma análise breve de alguma bibliografia auxiliar disponível. É que o maior desses problemas é, mais do que a falta de traduções e ensaios, a falta de materiais como dicionários e gramáticas de referência. Causa estranheza os Estudos Clássicos serem tão antigos e não haver um bom dicionário de Latim ou de Grego feito na nossa língua!
Na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (em Coimbra não será diferente), os alunos de Estudos Clássicos têm de saber consideravelmente bem uma língua estrangeira para usar gramáticas e dicionários franceses ou ingleses de Latim e Grego.

É claro que existem alguns materiais auxiliares em português. Na área do Grego, eles são muito escassos. Lembro que não há nenhum manual de Grego para o Ensino Secundário. Quando comecei a estudar a língua, existiam apenas duas gramáticas portuguesas. Uma, de António Freire (Livraria Apostolado da Imprensa), e outra, de Abílio Alves Perfeito (Porto Editora). Ainda hoje não sei como classificar a primeira; a segunda foi vítima de uma mutilação da Editora, que lhe introduziu tantos erros/gralhas, que ficou quase inutilizável! Só há poucos anos saiu uma gramática mais completa e que se pode dizer de referência, do Professor Manuel Alexandre Júnior. No entanto, e ao contrário da vontade do autor, também tem algumas gralhas, que estão certamente identificadas e que serão corrigidas numa futura edição.
Existe apenas um dicionário de Grego-Português e Português-Grego, mas está, infelizmente, longe de se poder dizer que é de “referência”. Só agora existe um projecto sólido para a elaboração de um dicionário de Grego-Português.
Os trabalhos do Professor Custódio Magueijo (a História da Língua Grega, por exemplo) são, estranhamente, quase todos impossíveis de obter...
Na área de literatura grega — e fora alguns trabalhos de tradução —, não há nada a dizer porque não há nada de que falar. Existem alguns (bons) artigos em publicações especializadas, mas não temos livros que dêem uma perspectiva geral da riqueza desta literatura. Ainda assim, merecem referência honrosa:
1) A obra Grécia Revisitada, do Prof. Frederico Lourenço;
2) A obra Ensaios sobre Píndaro, de vários autores;
3) A obra Ensaios sobre Eurípides, da Prof.ª Maria de Fátima Silva;
4) A obra Ensaios sobre Aristófanes, da Prof.ª Maria de Fátima Silva (no prelo);
5) Algumas traduções: A Tragédia Grega, de H.D.F. Kitto, A Tragédia Grega, de Jacqueline de Romilly e História da Literatura Grega, de Albin Lesky.

A ideia que os Estudos Clássicos portugueses fazem sair é a de uma área obscura e inútil, mesmo que clamem o contrário. Os Professores que berram contra dicionários e gramáticas não fazem nada para que eles deixem de existir e/ou para os substituir por obras de verdadeiro valor.
Sem a base, não se pode fazer mais nada.

2 comentários:

João Fialho disse...

Caro senhor,

cumpre-me informá-lo de que não havia qualquer curso de "Filologia Clássica" ou outro semelhante, nem em Lisboa nem em Coimbra, antes da implantação da República. Houve cadeiras da área da Filologia Clássica, com esta ou outra designação (talvez como hoje se encontram mutatis mutandis em Évora,na Nova, no Porto etc) nas duas cidades, quer no âmbito do Curso de Teologia quer no Curso Superior de Letras (que era antes de mais um Curso, não propriamente uma faculdade) quer ainda no Curso de Habilitação ao Magistério.

Ricardo disse...

Tem Vossa Excelência toda a razão, pelo que o texto se encontra corrigido.
Tal lapso deve-se a uma confusão de ocasiões, pois eu pensava no discurso que o Professor Leite de Vasconcelos fez na inauguração da Faculdade de Letras (agora que me documentei, este foi proferido no dia 6 de Novembro de 1911): o resto já se sabe.