domingo, julho 01, 2007

A importância dos lemas em latim

Resumo um artigo do sítio da BBC para falar de lemas de escolas e de clubes de futebol em Latim. O facto de Gordon Brown ter recordado o lema latino da sua escola secundária levou a que o jornalista Finlo Rohrer escrevesse sobre a importância desses lemas. Umas vezes eles são seguidos à risca, outras ficam ligeiramente esquecidos:
There are a select group of institutions — including schools and football clubs — where a Latin motto is almost a sine qua non. Go on the web and you can even find Latin consultants for businesses wanting a heavyweight motto.
The idea is simple, a bit of Latin spells a dose of gravitas, and a hefty slice of tradition and history.
Mottos for schools tend to be laden with concepts like effort, honesty, humility, teamwork — in short all the attributes the teachers wished the pupils really possessed.
(...) Rarely used but worth considering for schools struggling with discipline (...).

Assim, temos alguns exemplos de lemas em escolas:
Usque conabor
Floreat etona
Floreat Domus Chathamensis
Veras hinc ducere voces
Non sibi sed omnibus
lumen accipe et imperti
vir sapit qui pauca loquitur
potius sero quam numquam

O artigo continua, referindo-se aos clubes de futebol:
In football, the benchmarks are nil satis nisi optimum (…) for Everton (...) and Blackburn Rovers’ arte et labore (…).
Tottenham Hotspur got an earful from Latin lovers at the beginning of 2006 when they announced a plan to drop the motto audere est facere (…) from the badge on their strips.


Beckham latinista
David Beckham is a Latinist, reportedly having ut amem et foveam (…) and perfectio in spiritu (…) as tattoos.
But the best sporting slogan is that of football club Queen’s Park with ludere causa ludendi (…).
Oliver Taplin, a classics professor at Oxford University, says Latin mottos hark back to a time when Latin was Europe’s lingua franca.
“It is interesting that school mottos are still mostly in Latin. They come from a tradition when if you were going to be a participant in European culture, you needed to know Latin. But I've also seen mottos in French and Greek.
“Latin is so associated with the history of education. Grammar schools were started so people could learn Latin grammar.”
Mr Taplin says he has been called on to conjure up Latin mottos, including on one occasion an obscene one for a retiring air force officer.

quinta-feira, junho 28, 2007

Catulo 21

XXI

Aurélio, pai de fomes,
não só destas de hoje, mas também de quantas foram
ou são ou serão em outras idades,
queres encavar o meu miúdo.
E nem disfarças: estás com ele, brincas com ele,
colado ao seu lado tudo tentas.
Em vão: é que a ti, que me tentas tramar,
primeiro te comerei eu com bela foda de boca.
E se ao menos o saciasses, calava-me.
Mas o que me dói, ai eu ai eu!,
é que o rapaz só aprenderá a passar fome e sede.
Por isso desiste, enquanto podes fazê-lo com honra,
não vás tu acabar de boca fodida.

Aureli pater esuritionum
non harum modo sed quot aut fuerunt
aut sunt aut aliis erunt in annis
pedicare cupis meos amores
nec clam nam simul es iocaris una
haerens ad latus omnia experiris
frustra nam insidias mihi instruentem
tangam te prior irrumatione
atque id si faceres satur tacerem
nunc ipsum id doleo quod esurire
me me puer et sitire discet
quare desine dum licet pudico
ne finem facias sed irrumatus

Catulo 33

XXXIII

Ó tu, o melhor dos ladrões de balneário,
pai Vibénio e filho paneleiro
(que mais porca é a mão do pai,
mais guloso o cu do filho):
porque não ides exilados para o raio
que vos parta, pois conhecidas são de todos
as pilhagens do pai, e as nalgas peludas,
filho, não podes traficar nem por um tostão!

o furum optime balneariorum
Vibenni pater et cinaede fili
nam dextra pater inquinatiore
culo filius est uoraciore
cur non exilium malasque in oras
itis quandoquidem patris rapinae
notae sunt populo et natis pilosas
fili non potes asse uenditare

Bátrakhoi no Barreiro (II)

Quando os estudos clássicos estão em rápido e acentuado declínio, quaiquer iniciativas que pretendam, de forma séria, pelo menos suster esta tendência são de assinalar e louvar. Por isso foi com satisfação que recebi o contacto da Andreia Martins, professora no Colégio Minerva (Barreiro), convidando os Bátrakhoi para a II Cena Romana do colégio, integrada na Semana da Cultura Romana.

Os Bátrakhoi são um grupo de teatro clássico, constituído em finais de 2003, por iniciativa da Comissão Executiva do Departamento de Estudos Clássicos, então presidida pelo professor Arnaldo do Espírito Santo. Na altura foi-me atribuída a direcção do grupo, função que tenho desempenhado desde então. As dificuldades de conciliação de horários e disponibilidades levou a uma actividade reduzida e de certa forma simbólica, que culminou com uma inactividade de facto, desde 2005. Ainda assim não hesitei em aceitar o convite da Andreia, e tratei de contactar alunos e colegas interessados em ressuscitar o grupo, e contribuir para a divulgação das coisas clássicas num colégio que até ensina latim a alunos do ensino básico. Infelizmente é uma época complicada, com testes e trabalhos. Mesmo assim conseguimos reunir 4 pessoas: Cristiana Silva, Paula Carreira, Rui Carlos Fonseca e Susana Alves.

Reunido o grupo de actores, era preciso escolher o texto. A minha ideia foi, desde o início, dizer poesia. Porque não implica tanto tempo de preparação nem tanta gente como uma peça de teatro, e porque, tendo em conta o contexto em que nos iríamos apresentar - um jantar - me parecia o mais adequado. A escolha recaiu em Catulo, pois tinha já alguns carmes traduzidos de forma despreocupada, nos tempos livres. Naturalmente, e tendo em conta o público, imediatamente se excluíram os carmes mais atrevidos (os "malcriadões", como lhes costumo chamar). Ficou uma pequena selecta de carmes que representam primeiro o deslumbre amoroso, depois a desilução, finalmente o despeito.

Divertimo-nos imenso a preparar a apresentação, e mais ainda enquanto dizíamos, dramatizando, os carmes, diante de professores, alunos e encarregados de educação. E é isso que vale a pena: fazermos coisas giras, sérias, e sobretudo divertirmo-nos enquanto as fazemos. Deixo aqui de novo um agradecimento muito grande à Cristiana Silva, à Paula Carreira, ao Rui Carlos Fonseca e à Susana Alves. Fizeram muito pela divulgação dos estudos clássicos, na noite de 22 de Junho de 2007, mais do que pode parecer à primeira vista. É que colóquios e conferências são importantíssimos, fundamentais para o crescimento dos estudos clássicos, para o enriquecimento científico de todos que por eles se interessam. Mas para se crescer tem de se nascer (Monsieur de La Palisse não teria dito melhor), e não há maneira mais eficaz para despertar o interesse do que iniciativas deste género: jantares romanos, representações, exposições, et cetera.

Para outra ocasião fica a reportagem sobre a Cena Romana propriamente dita.

sábado, junho 23, 2007

Bátrakhoi no Barreiro (I)

P6220039

Enquanto preparo a "reportagem" da apresentação dos Bátrakhoi no Colégio Minerva (Barreiro), aqui ficam as fotografias:

http://flickr.com/photos/peregrinationes/sets/72157600439797888/

segunda-feira, junho 18, 2007

Píndaro de alfarrábio


Noutra das minhas incursões alfarrabísticas encontrei uma tradução da Segunda Olímpica, de Píndaro. A edição é de 1816, e o tradutor António Maria do Couto. Tem o pormenor interessante de contar com duas versões: uma tradução em prosa, e uma versão metrificada. Antes de o meu "scanner" falecer de morte súbita lembrei-me de digitalizar esta curiosa edição. Aqui ficam as imagens.

http://zmiloc.home.sapo.pt/pindaro/p01-pequeno.jpg
http://zmiloc.home.sapo.pt/pindaro/p02-pequeno.jpg
http://zmiloc.home.sapo.pt/pindaro/p03-pequeno.jpg
http://zmiloc.home.sapo.pt/pindaro/p04-pequeno.jpg
http://zmiloc.home.sapo.pt/pindaro/p05-pequeno.jpg
http://zmiloc.home.sapo.pt/pindaro/p06-pequeno.jpg
http://zmiloc.home.sapo.pt/pindaro/p07-pequeno.jpg
http://zmiloc.home.sapo.pt/pindaro/p08-pequeno.jpg

Mais dicionários




Na sequência do artigo do Ricardo, lembrei-me de uma relíquia que em tempos encontrei num alfarrabista do Bairro Alto. Uma forte chuvada tinha inundado a cave da loja, e o dono viu-se obrigado a vender ao desbarato todo o espólio, de modo a evitar que se estragasse. Por 500 escudos (cerca de 2,5€) comprei dois belíssimos dicionários, um de Latim-Português, outro de Português-Latim, ambos do início do século XIX. O interesse que me despertaram foi o da simples curiosidade. Tal como as gramáticas de Latim do século XVIII que na altura também comprei por um preço bastante acessível. Deixo duas imagens, como curiosidade.



Estudar os Clássicos (2): Latim

O segundo artigo que dedico ao estudo das línguas e literaturas clássicas e seus materiais tem como tema os dicionários de Latim. Falarei de gramáticas e de literatura latina noutros textos.

Os dicionários de Latim disponíveis em português são, sem excepção, feitos a partir de outros dicionários, o que significa que não só lhes copiam os erros, como também, por alta recreação, acrescentam outros.
1.º O Novissimo Dicionário Latino-Portuguez de F. R. dos Santos Saraiva é uma obra monumental, mas extraordinariamente desactualizada (data do início do século XX). Inclui palavras latinas que não existem em nenhum texto.
2.º O Dicionário Latino-Português de Francisco Torrinha é um clássico. Feito, sobretudo, a partir do dicionário de C. T. Lewis e C. Short (ele mesmo “Based on Andrews's edition of Freund's Latin Dictionary”), não alarga os significados muito além da época clássica, mas não era esse o seu propósito. É um bom dicionário.
3.º Conheço mal o Novo Dicionário Latino-Português de Francisco António de Sousa (edição actualizada e aumentada por José Lello e Edgard Lello, Lello & Irmão Editores, 1992), mas parece-me igualmente um dicionário bastante aceitável.
4.º O Dicionário de Latim-Português1 de António Gomes Ferreira foi-nos imposto pela máquina do “marketing” da Porto Editora. Sucessivas reimpressões nunca significaram melhorias na sua qualidade, que ficou intocável até há anos (2001, penso), quando o Departamento de Dicionários resolveu informatizar e embelezar as páginas do dicionário, retirando-lhe a autoria. As aplicações informáticas e o desdobramento de algumas entradas resultaram numa profunda confusão e em vários vocábulos fora da ordem alfabética. As quantidades trocadas, as escolhas editoriais não sistemáticas, etimologias absurdas, erros ortográficos, classificações gramaticais erradas e errada atribuição de autoria dos exemplos são alguns dos erros mais frequentes. Por vezes, são meras gralhas, mas em tratando-se de um dicionário, é no mínimo estranho que não seja um produto de inteira confiança. A segunda edição deste dicionário está, portanto, longe de ser aceitável. Curiosamente, é o único que se encontra disponível no mercado.
A Porto Editora prepara agora uma terceira edição totalmente revista e corrigida.

1 A pré-visualização disponível aqui não é a da segunda edição, mas da terceira, por sair e por retocar.

sexta-feira, junho 15, 2007

Metamorfoses

A editora Livros Cotovia lança no mercado uma nova tradução da obra-prima de Ovídio, Metamorfoses, feita pelo Professor Paulo Alberto, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, responsável por traduções tão importantes quanto o primeiro livro da História de Roma, de Tito Lívio, ou parte da Eneida, de Vergílio. Esta edição, lemos no sítio da editora, "inclu[i] notas, glossário e mapas, para que o leitor desfrute ao máximo da obra de Ovídio".
Livros Cotovia junta, assim, este aos títulos de Ovídio já disponíveis, a Arte de Amar e os Amores, vertidos pelo Professor Carlos Ascenso André, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Recordo que a editora Nova Vega também se encontra a publicar as Metamorfoses (até agora, saiu um de dois volumes), tradução de Domingos Lucas Dias, Professor na Universidade Aberta, que é enriquecida com o texto latino original.

quinta-feira, junho 14, 2007

Noites do Museu (Odrinhas)


O Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas organiza "visitas à luz da chama guiadas por figuras da Romanidade". As visitas, mediante reserva, decorrem nos dias 23 de Junho, 14 de Julho e 15 de Setembro, entre as 21h e as 24h.


Mais informações:

219609520
219613578 (fax)

Os Clássicos na Literatura Portuguesa (2)

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras.
pp. 184-187:

A essa hora, enquanto pelo arvoredo mudo os mais agitados pardais dormiam, e o Sol mesmo parecia repousar, imóvel na rutilância da sua luz, Jacinto, com o espírito acordado, — ávido de sempre gozar, agora que reconquistara essa faculdade — tomava com delícia o seu livro. Porque o dono de trinta mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de ressuscitado, o homem que só tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligara das ligaduras amortalhadoras do tédio, e lhe gritara o seu belo ambula, caminha! — também certamente lhe gritara et lege, e lê, E libertado enfim do invólucro sufocante da sua Biblioteca imensa, o meu ditoso amigo compreendia enfim a incomparável delícia de ler um livro. Quando eu correra a Tormes (depois das revelações do Severo na venda do Torto), ele findava o D. Quixote, e ainda eu lhe escutara as derradeiras risadas com as coisas deliciosas, e decerto profundas, que o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o meu Príncipe mergulhara na Odisseia, — e todo ele vivia no espanto e no deslumbramento de assim ter encontrado, no meio do caminho da sua vida, o velho errante, o velho Homero!
— Oh Zé Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade sem ter lido Homero?...
— Outras leituras mais urgentes... o Figaro, Georges Ohnet... — Tu leste a Ilíada? — Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a Ilíada Os olhos do meu Príncipe fuzilavam. — Tu sabes o que fez Alcibíades, uma tarde, no Pórtico, a um sofista, um desavergonhado de um sofista, que se gabava de não ter lido a Ilíada?
— Não.
— Ergueu a mão e atirou-lhe uma bofetada tremenda.
— Para lá, Alcibíades! Olha que eu li a Odisseia!
Oh! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E insistia em me iniciar, ele, e me conduzir, através do Livro sem igual. Eu ria. E rindo, pesado do almoço, terminava por consentir, e me estirava no canapé de verga. Ele, diante da mesa, direito na cadeira, abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e começava numa lenta ode sentida. Aquele grande mar da Odisseia — resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, sob o voo branco das gaivotas, rolando, e, mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra as rochas de mármore das Ilhas Divinas, — exalava, logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora naquela calma de Junho, em que a serra se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulisses e os seus perigos sobre-humanos, tantas lamúrias sublimes e um anseio tão espalhado da pátria perdida, e toda aquela intriga, em que embrulhava os heróis, lograva as deusas, iludia o Fado, tinham um delicioso sabor ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de engenho, e a Vida se desenrolava com a segurança imutável com que cada manhã sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por águas iguais, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Embalado pela recitação grave e monótona do meu Príncipe, eu cerrava as pálpebras docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e céu, me alvoroçava... E eram os rugidos de Polifemo, ou a grita dos companheiros de Ulisses roubando as vacas de Apolo. Com os olhos logo esbugalhados para Jacinto, eu murmurava: «Sublime!» E sempre, nesse momento o engenhoso Ulisses, de carapuço vermelho e o longo remo ao ombro, surpreendia com a sua facúndia a clemência dos príncipes, ou reclamava presentes devidos ao hóspede, ou surripiava astutamente algum favor aos deuses. E Tormes dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as pálpebras consoladas, sob a carícia inefável do largo dizer homérico... E meio adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina Hélade, entre o mar muito azul e o céu muito azul, a branca vela, hesitante, procurando Ítaca...

Os Clássicos na Literatura Portuguesa (1)

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras.
pp. 147-48:

Mirando, à vela de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o meu Príncipe, com um resplendor de optimismo na face, citou Virgílio:
Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantará, vinho amável destas serras?
Eu, que não gosto que me avantagem em saber clássico, espanejei logo também o meu Virgílio, louvando as doçuras da vida rural:
Hanc olim veteres vitam coluere Sabini... Assim viveram os velhos Sabinos. Assim Rómulo, e Remo... Assim cresceu a valente Etrúria. Assim Roma se tomou a maravilha do mundo!
E imóvel, com a mão agarrada à infusa, o Melchior arregalava para nós os olhos em infinito assombro e religiosa reverência.


p.161:

Eis a Imprensa!... Mas nada de «Figaro», ou da horrenda «Dois Mundos»! jornais de agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados necessita a abelha provida... Quid faciat laetas segetes... De resto para esta nobre educação, já me bastavam as Geórgicas, que tu ignoras!
Eu ri:
— Alto lá! Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus! Mas o meu novíssimo amigo, debruçado da janela, batia as palmas — como Catão para chamar os servos, na Roma simples.

quarta-feira, junho 13, 2007

Catulo 13

[Rowlandson - O jantar de peixe]

Jantarás bem, meu Fabulo, em minha casa,
dentro de poucos dias, assim o queiram os deuses,
se contigo trouxeres bom e lauto
jantar, não sem miúda jeitosa,
e vinho e graçolas e risotas muitas.
Se isto trouxeres, meu queriducho,
digo-te que jantarás bem. É que
a carteira do teu Catulo está cheia de teias de aranha.
Mas em troca terás puros amores,
ou o algo mais suave e delicado:
é que te darei um perfume,
que à minha miúda deram Vénus e Cupidos,
e quando o cheirares, rogarás aos deuses
que te transformem, Fabulo, em nariz.

(Catulo 13)

cenabis bene mi Fabulle apud me
paucis si tibi di fauent diebus
si tecum attuleris bonam atque magnam
cenam non sine candida puella
et uino et sale et omnibus cachinnis
haec si inquam attuleris uenuste noster,
cenabis bene nam tui Catulli
plenus sacculus est aranearum
sed contra accipies meros amores
seu quid suauius elegantiusue est
nam unguentum dabo quod meae puellae
donarunt Veneres Cupidinesque
quod tu cum olfacies deos rogabis
totum ut te faciant Fabulle nasum

domingo, junho 10, 2007

Borges

Enquanto relia, extasiado, o Libro de Arena, de Borges, dei com esta sentença que tão bem se aplica ao que se passa em Portugal.

Cada día que pasa nuestro país es más provinciano. Más provinciano y más engreído, como si cerrara los ojos. No me sorprendería que la enseñanza del latín fuera reemplazada por la del guaraní.


Jorge Luis Borges, El Otro

sábado, junho 09, 2007

Estudar os Clássicos (1): Grego

Os Estudos Clássicos têm longa tradição em Portugal, sendo uma área de estudos considerada, desde remotos tempos, basilar. O curso de Filologia Clássica fazia já parte do currículo do Curso Superior de Letras, fundado em Lisboa por D. Pedro V em 1859, e antecessor da actual da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, aquando da sua inauguração.
Apesar disso, os Estudos Clássicos são pouco considerados pela sociedade portuguesa, classes educativa, científica e política incluídas. Primeiro, porque como o Latim está intimamente relacionado com a Igreja, é considerado língua de padres e de gente católica; segundo, porque da actividade científica produzida pelos nossos investigadores pouco se vê.
Falta visibilidade a muitas iniciativas de partilha de saberes (encontros, colóquios, congressos), mas falta muita obra. Assim, lembro que só recentemente vieram à luz traduções integrais de obras fundamentais da literatura antiga: Odisseia, Ilíada e Eneida. Só agora começou a sair uma tradução moderna das Metamorfoses de Ovídio! O mesmo se diga para a Arte de Amar e os Amores, do mesmo poeta.
O volume de bibliografia que se insere na temática línguas e literaturas clássicas, em países como o Reino Unido, França, Estados Unidos, Alemanha ou Itália, é esmagador. No entanto, e ainda que — repito — os Estudos Clássicos sejam bastante antigos em Portugal, entre nós, pouco ou nada se produz: e o que se produz é, em geral, básico e de fraca qualidade.
Várias são as explicações para que isto assim seja, mas não é minha intenção dissecá-los.
No meu primeiro texto neste espaço para que tive a honra de ser convidado, quero dar ênfase aos muitos problemas com que um indivíduo que pretenda seguir esta área de estudos depara, fazendo uma análise breve de alguma bibliografia auxiliar disponível. É que o maior desses problemas é, mais do que a falta de traduções e ensaios, a falta de materiais como dicionários e gramáticas de referência. Causa estranheza os Estudos Clássicos serem tão antigos e não haver um bom dicionário de Latim ou de Grego feito na nossa língua!
Na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (em Coimbra não será diferente), os alunos de Estudos Clássicos têm de saber consideravelmente bem uma língua estrangeira para usar gramáticas e dicionários franceses ou ingleses de Latim e Grego.

É claro que existem alguns materiais auxiliares em português. Na área do Grego, eles são muito escassos. Lembro que não há nenhum manual de Grego para o Ensino Secundário. Quando comecei a estudar a língua, existiam apenas duas gramáticas portuguesas. Uma, de António Freire (Livraria Apostolado da Imprensa), e outra, de Abílio Alves Perfeito (Porto Editora). Ainda hoje não sei como classificar a primeira; a segunda foi vítima de uma mutilação da Editora, que lhe introduziu tantos erros/gralhas, que ficou quase inutilizável! Só há poucos anos saiu uma gramática mais completa e que se pode dizer de referência, do Professor Manuel Alexandre Júnior. No entanto, e ao contrário da vontade do autor, também tem algumas gralhas, que estão certamente identificadas e que serão corrigidas numa futura edição.
Existe apenas um dicionário de Grego-Português e Português-Grego, mas está, infelizmente, longe de se poder dizer que é de “referência”. Só agora existe um projecto sólido para a elaboração de um dicionário de Grego-Português.
Os trabalhos do Professor Custódio Magueijo (a História da Língua Grega, por exemplo) são, estranhamente, quase todos impossíveis de obter...
Na área de literatura grega — e fora alguns trabalhos de tradução —, não há nada a dizer porque não há nada de que falar. Existem alguns (bons) artigos em publicações especializadas, mas não temos livros que dêem uma perspectiva geral da riqueza desta literatura. Ainda assim, merecem referência honrosa:
1) A obra Grécia Revisitada, do Prof. Frederico Lourenço;
2) A obra Ensaios sobre Píndaro, de vários autores;
3) A obra Ensaios sobre Eurípides, da Prof.ª Maria de Fátima Silva;
4) A obra Ensaios sobre Aristófanes, da Prof.ª Maria de Fátima Silva (no prelo);
5) Algumas traduções: A Tragédia Grega, de H.D.F. Kitto, A Tragédia Grega, de Jacqueline de Romilly e História da Literatura Grega, de Albin Lesky.

A ideia que os Estudos Clássicos portugueses fazem sair é a de uma área obscura e inútil, mesmo que clamem o contrário. Os Professores que berram contra dicionários e gramáticas não fazem nada para que eles deixem de existir e/ou para os substituir por obras de verdadeiro valor.
Sem a base, não se pode fazer mais nada.

Symposion e philanthropia em Plutarco



Recebido de Delfim Leão, da Universidade de Coimbra:

«Tenho o gosto de dar a conhecer o website relativo ao 8º Congresso da International Plutarch Society, que decorrerá em Coimbra, em Setembro de 2008:

http://www.plutarchus.org

Aí poderão encontrar informações gerais relativas ao programa e à forma de participar. Para qualquer dúvida, não hesitem em entrar em contacto com qualquer um dos elementos da Comissão Organizadora:

José Ribeiro Ferreira (rifer@fl.uc.pt)
Delfim Ferreira Leão (leo@fl.uc.pt)
Paula Barata Dias (pabadias@hotmail.com)
Frances Titchener (f.b.titchener@usu.edu)
Rodolfo Lopes (rodolfo.nunes.lopes@gmail.com) »

domingo, junho 03, 2007

Ovídio: exílio e poesia no bimilenário da “relegatio”



Tem lugar dia 21 de Junho de 2007 a comemoração do bimilenário da relegatio de Ovídio. As comunicações decorrerão entre as 9:30 e as 19:15, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

O programa pode ser consultado aqui:

http://estudosclassicos.googlepages.com/OVIDIOcoloquioPROGRAMA.doc

Catulo 8

[Bosch - Tentação de Santo Antão]

Pobre Catulo, deixa-te de loucuras,
e o que vês finado considera-o perdido.
Luziram-te outrora sóis brilhantes,
quando ias e vinhas para onde te levava uma miúda,
amada por mim como nenhuma outra será amada.
Então tantas brincadeiras havia,
que tu querias e
a miúda não dizia que não.
Luziram-te sem dúvida sóis brilhantes.
Agora ela já não quer. Tu, delirante, não queiras também,
nem corras atrás de quem foge, nem vivas infeliz,
mas sofre de ânimo firme e endurece.
Adeus miúda, já Catulo endureceu,
e não te procurará nem te implorará contrariada.
Mas tu lamentarás, quando ninguém te procurar.
Ai de ti, desgraçada, que vida te resta?
Quem se chegará agora a ti? A quem parecerás bela?
Quem amarás agora? De quem dirás ser?
Quem beijarás? De quem morderás os lábios?
E tu, Catulo, determinado endurece.

(Catulo, carme 8)


miser Catulle desinas ineptire
et quod uides perisse perditum ducas
fulsere quondam candidi tibi soles
cum uentitabas quo puella ducebat
amata nobis quantum amabitur nulla
ibi illa multa cum iocosa fiebant
quae tu uolebas nec puella nolebat
fulsere uere candidi tibi soles
nunc iam illa non uult tu quoque impotens noli
nec quae fugit sectare nec miser uiue
sed obstinata mente perfer obdura
uale puella iam Catullus obdurat
nec te requiret nec rogabit inuitam
at tu dolebis cum rogaberis nulla
scelesta uae te quae tibi manet uita
quis nunc te adibit cui uideberis bella
quem nunc amabis cuius esse diceris
quem basiabis cui labella mordebis
at tu Catulle destinatus obdura

Catulo 70

[Kolb - Mimosa leaves]


Com nenhum outro diz a minha amada querer casar-se
senão comigo, nem se lho pedisse o próprio Júpiter.
Diz ela, mas o que diz mulher a amante apaixonado,
no vento e na água violenta convém escrever.

(Catulo, carme 70)

nulli se dicit mulier mea nubere malle
quam mihi non si Iuppiter ipse petat
dici sed mulier cupido quod dicit amanti
in uento et rapida scribere oportet aqua

Catulo 58

[Fresco de Pompeios]

A nossa Lésbia, Célio, aquela Lésbia,
aquela Lésbia, a única que Catulo
mais do que a si mesmo e aos seus amou,
agora em esquinas e vielas
esfrega os netos do nobre Remo.

(Catulo, carme 58)

Caeli Lesbia nostra Lesbia illa
illa Lesbia quam Catullus unam
plus quam se atque suos amauit omnes
nunc in quadriuiis et angiportis
glubit magnanimi Remi nepotes

Catulo 72

[Jan de Bray - Retrato de jovem]

Dizias tu outrora que só Catulo conhecias,
Lésbia, que nem Júpiter em vez de mim querias.
Amei-te então não como homem a amante,
mas como ama pai filhos e genros.
Agora conheço-te. Por isso, se mais muito mais ardo,
para mim és tão mais vulgar e inconstante.
Como é possível? - perguntas. É que injúria tal
obriga o amante a amar mais, mas a querer bem menos.

(Catulo, carme 72)


dicebas quondam solum te nosse Catullum
Lesbia nec prae me uelle tenere Iouem
dilexi tum te non tantum ut uulgus amicam
sed pater ut gnatos diligit et generos
nunc te cognoui quare etsi impensius uror
multo mi tamen es uilior et leuior
qui potis est inquis quod amantem iniuria talis
cogit amare magis sed bene uelle minus

Catulo 75

[Salomon de Bray - Retrato de jovem]

Até aqui desceu por culpa tua minha alma, Lésbia,
e de tal maneira se perdeu ela do seu mester
que já não pode bem querer-te, tornasses-te tu a melhor,
nem deixar de te amar, ainda que por isso tudo faças.

(Catulo, carme 75)

huc est mens deducta tua mea Lesbia culpa
atque ita se officio perdidit ipsa suo
ut iam nec bene uelle queat tibi si optima fias
nec desistere amare omnia si facias

Catulo 56

[Terbrugghen - Rapaz tocando flauta]

Ó coisa risível, Catão, e divertida,
e digna do teu ouvido e da tua gargalhada!
Ri, Catão, se realmente gostas do Catulo.
É coisa risível e muito engraçada:
apanhei há pouco um miúdo a dar
numa miúda. Ora eu, com a ajuda de Dione,
caí sobre ele com a minha tusa como arma!

(Catulo, carme 56)

o rem ridiculam Cato et iocosam
dignamque auribus et tuo cachinno
ride quidquid amas Cato Catullum
res est ridicula et nimis iocosa
deprendi modo pupulum puellae
trusantem hunc ego si placet Dionae
pro telo rigida mea cecidi

Catulo 3

[Everdingen - Baco com ninfas e cupido]

Chorai, ó Vénus e Cupidos,
e quantos homens há sensíveis:
morreu o pardalito da minha miúda,
o pardalito, o mais-que-tudo da minha miúda,
que ela mais do que os seus olhos amava.
Era na verdade doce, e a dona conhecia
tão bem como menina a sua mãe.
E não saía do seu colo,
mas, saltitando ora para aqui ora para ali,
só para a sua dona pipilava sem parar.
Vai ele agora por caminho tenebroso
para esse lugar, donde dizem nunca ninguém voltou.
Malditas vós, trevas funestas
do Orco, que todas as coisas belas devorais:
tão belo pardalito me arrebatastes!
Ó maldade! Ó pobrezito pardalito!
Por tua causa vermelham de chorar
os olhinhos inchadinhos da minha miúda!

(Catulo, carme 3)

lugete o Veneres Cupidinesque
et quantum est hominum uenustiorum
passer mortuus est meae puellae
passer deliciae meae puellae
quem plus illa oculis suis amabat
nam mellitus erat suamque norat
ipsam tam bene quam puella matrem
nec sese a gremio illius mouebat
sed circumsiliens modo huc modo illuc
ad solam dominam usque pipiabat
qui nunc it per iter tenebricosum
illuc unde negant redire quemquam
at uobis male sit malae tenebrae
Orci quae omnia bella deuoratis
tam bellum mihi passerem abstulistis
o factum male o miselle passer
tua nunc opera meae puellae
flendo turgiduli rubent ocelli

Catulo 16

[Velázquez - Los borrachos]

O cu e a boca vos foderei eu,
Aurélio minha bicha, Fúrio meu paneleiro,
que pelos meus versinhos me julgam,
por tão delicadinhos serem, pouco virtuoso.
É que casto deve ser o bom poeta,
não têm de o ser os seus versinhos,
que além do mais têm picante e graça,
sendo tão delicadinhos e pouco virtuosos,
e se podem provocar comichões,
não digo aos miúdos, mas a estes peludos
que não conseguem mexer as duras piças.
Vocês, porque "muitos milhares de beijos"
me leram, acham que eu sou pouco macho?
O cu e a boca vos foderei eu!

(Catulo, carme XVI)

pedicabo ego uos et irrumabo
Aureli pathice et cinaede Furi
qui me ex uersiculis meis putastis
quod sunt molliculi parum pudicum
nam castum esse decet pium poetam
ipsum uersiculos nihil necesse est
qui tum denique habent salem ac leporem
si sunt molliculi ac parum pudici
et quod pruriat incitare possunt
non dico pueris sed his pilosis
qui duros nequeunt mouere lumbos
uos quod milia multa basiorum
legistis male me marem putatis
pedicabo ego uos et irrumabo

Catulo 5

[Klimt - O beijo]

Vivamos, Lésbia minha, e amemos.
A má-língua dos velhos mais sisudos
não mais do que um tostão nos valha.
Podem os dias morrer e nascer:
quando a breve luz de vez morrer
noite perpétua devemos juntos dormir.
Dá-me beijos mil, e depois cem,
e depois mil outros, e depois mais cem,
e depois ainda mais mil, e depois cem.
Depois, quando muitos dermos,
baralhá-los-emos para não sabermos quantos,
ou não possa homem mau invejar-nos,
ao saber quantos beijos démos.

(Catulo, carme V)

uiuamus mea Lesbia atque amemus
rumoresque senum seueriorum
omnes unius aestimemus assis
soles occidere et redire possunt
nobis cum semel occidit breuis lux
nox est perpetua una dormienda
da mi basia mille deinde centum
dein mille altera dein secunda centum
deinde usque altera mille deinde centum
dein cum milia multa fecerimus
conturbabimus illa ne sciamus
aut ne quis malus inuidere possit
cum tantum sciat esse basiorum

Catulo 85

[Rubens - Prometeu agrilhoado]

Odeio e amo. Porque o faço, talvez perguntes.
Não sei. Mas sinto-o. E excrucio-me

(Catulo, carme 85)

odi et amo quare id faciam fortasse requiris
nescio sed fieri sentio et excrucior

Catulo 32

[Fresco de Pompeios representando Príapo]

Por favor, minha doce Ipsitila,
minha linda, minha doçura,
manda te visite à hora da sesta.
E se o mandares bom será que
ninguém ponha tranca na porta,
nem te apeteça ir à rua,
mas que fiques em casa e nos prepares
nove fodas seguidas.
A sério, se te apetece mesmo, manda depressa,
pois almoçado e cheio de barriga para o ar
já rasgo não só a túnica mas também o pálio!

(Catulo, carme 32)

amabo mea dulcis Ipsitilla
meae deliciae mei lepores
iube ad te ueniam meridiatum
et si iusseris illud adiuuato
ne quis liminis obseret tabellam
neu tibi lubeat foras abire
sed domi maneas paresque nobis
nouem continuas fututiones
uerum si quid ages statim iubeto
nam pransus iaceo et satur supinus
pertundo tunicamque palliumque

sábado, maio 19, 2007

Manuscritos Gregos quinhentistas no espaço peninsular hispânico


Testemunhos de um Humanismo Bifronte:
Manuscritos Gregos quinhentistas no espaço peninsular hispânico


Seminário
Data: 2007. 05. 25
Hora: 10.00 horas
Sala: Centro de Estudos Clássicos

1. Ángel Escobar Chico, Professor da Universidade de Saragoça:
Manuscritos gregos na Península Ibérica: dados e problemas de descrição
2. Aires A. Nascimento, Director do CEC / Fac. Letras, Lisboa
Manuscritos gregos na biblioteca do arcebispo de Évora, D. Teotónio de Bragança

terça-feira, abril 17, 2007

Marcos miliários



Na sequência do ciclo de palestras dos "Encontros Era", tem lugar amanhã, dia 18 de Abril de 2007, pelas 18:30h, no Museu Nacional de Arqueologia, a conferência "Sobre os marcos miliários de Almoinhas (Loures) e alguns problemas da viação romana no território de Olisipo", pelo professor Amílcar Guerra, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

quinta-feira, março 29, 2007

terça-feira, março 20, 2007

Estudos Clássicos - Candidaturas para maiores de 23 anos

Já está em linha a página de divulgação das candidaturas para maiores de 23 anos ao curso de Estudos Clássicos, na Universidade de Lisboa.

http://estudosclassicos.googlepages.com/maiores23

segunda-feira, março 05, 2007

Curso "El impacto egipcio en Roma"



Decorre em Mérida, entre 23 e 24 de Março, o curso "El impacto egipcio en Roma":

La conquista de Egipto por parte de Roma producida en el año 30 a C., causó un considerable impacto en la sociedad romana. Aunque ya lo había hecho con anterioridad, Roma dirigió su mirada sobre las maravillas del antiguo Egipto y se produjo así lo que se ha dado en llamar la egiptomanía, que se hizo presente en diversas manifestaciones de la Roma Imperial.

El curso se ha organizado para presentar algunos de los más importantes aspectos de este fenómeno.

domingo, março 04, 2007

Júlio César no São Luiz

A Cornucópia, em parceria com o Teatro Municipal de São Luiz (TMSL), apresenta entre 21 de Março e 22 de Abril a Tragédia de Júlio César, de Shakespeare, encenada por Luís Miguel Cintra. Associada à representação, o TMSL organiza ainda dois eventos bastante prometedores: uma conversa entre os professores José Pedro Serra e Maria Helena Serôdio (FLUL) subordinada ao tema Júlio César, mito e história (17 de Março, 18:30, Jardim de Inverno); uma visita temática ao Museu Nacional de Arqueologia, com o tema O culto imperial em Roma (24 e 31 de Março, 14 e 28 de Abril).

Programa aqui.

Informações também presentes no Livro de Estilo.

Magnum Miraculum est Homo

Acontece no dia 31 de Maio de 2007, na FLUL, a jornada Magnum Miraculum est Homo. José Vitorino de Pina Martins e o Humanismo. O programa pode ser visto aqui. O Departamento de Estudos Clássicos está representado por Ana Tarrío, que

sábado, março 03, 2007

José Pedro Serra, "Pensar o Trágico"

Saiu recentemente mais uma publicação na área dos Estudos Clássicos, desta vez sobre tragédia. O autor é José Pedro Serra, que tem feito a sua investigação precisamente nesta área. Não podendo fazer ainda uma recensão, pois não tive tempo ainda de o ler, deixo aqui as primeiras linhas da introdução.

"Perguntar o que é a tragédia significa aceitar a tradição, querer ver o que os outros viram e integrar isso numa mais ampla e não ingénua visão; perguntar o que é a tragédia significa, pois, aceitar a história, interpelando-a. De acordo com o que em cada visão se vê, o homem, em cada época, se faz gesto e pensamento; esse contínuo e renovado erguer-se, a si e ao mundo, é obra de cultura e a cultura é obra humana, rasto humano na poeira pelo tempo levantada. Perguntar o que é a tragédia é, então, cultura sobre cultura debruçando-se, revisitação, demanda prolongada do rosto do homem e da realidade que habita. A demanda move-se pelo desejo, e o desejo de ver, de conhecer, é a afortunada maldição da nossa condição de seres mortais".

José Pedro Serra, Pensar o Trágico. Categorias da Tragédia Grega. Fundação Calouste Gulbenkian, 2006. ISBN: 972-31-1166-7

sexta-feira, março 02, 2007

Novo romance de Steven Saylor: "Roma"

Chegou-me hoje pelo correio, ainda quentinho, o novo romance de Steven Saylor, "Roma". Steven Saylor tem-nos habituado a romances de mistério situados na Roma do fim da República - a série Roma sub Rosa, protagonizada por Gordiano e sua família e amigos. Hei-de escrever um texto mais desenvolvido sobre a série Roma sub Rosa, por enquanto deixo algumas poucas notas.

Steven Saylor consegue a difícil façanha de escrever sobre Roma, com um rigor científico irrepreensível, sem que pareça, em momento nenhum, que está a dar uma aula de história ou cultura.

Gordiano o Descobridor (não sei como está a tradução portuguesa de "Gordianus the Finder", li a obra sempre no original), o protagonista e narrador, tem uma imperfeição rara de encontrar em detectives e investigadores policiais de ficção, o que o torna talvez a mais verosímil e autêntica personagem do género que já li.

Por estas e muitas outras razões, a série Roma sub Rosa é imprescindível para quem gosta de romances de mistério e/ou policiais - e mesmo para quem não gosta, como é o meu caso. Segundo o próprio Steven Saylor me disse, confirmando a informação presente na sua página, a série não terminou, e em 2008 Gordiano regressará com mais aventuras. Entretanto, para todos os admiradores do escritor fica este novo romance, que segue um caminho bastante diferente. Enquanto não o leio, aqui deixo a resenha presente na sua página.


"Spanning a thousand years, and following the shifting fortunes of two families though the ages, this is the epic saga of Rome, the city and its people.

Drawing on history, legend, and new archaeological discoveries, Roma gives new life to the drama of the city’s first thousand years — from the founding of the city by the ill-fated twins Romulus and Remus, through Rome’s astonishing ascent to become the capitol of the most powerful empire in history. Roma recounts the tragedy of the hero-traitor Coriolanus, the capture of the city by the Gauls, the invasion of Hannibal, the political struggles of patricians and plebeians, and the death of Rome’s republic with the triumph, and assassination, of Julius Caesar.

Witnessing this history, and sometimes playing key roles, are the descendents of two of Rome’s first families, the Potitius and Pinarius clans. One is the confidant of Romulus. One is born a slave and tempts a Vestal virgin to break her vows. One becomes a mass murderer. And one becomes the heir of Julius Caesar. Linking the generations is a mysterious talisman as ancient as the city itself."

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Influências greco-latinas na língua árabe VIII

A influência latina na língua árabe clássica (e moderna padrão) parece-me estar centrada sobretudo no léxico da administração e da guerra. No entanto também se encontra léxico de origem latina em instrumentos de utilização quotidiana, como é o caso de فرن [furn], "forno", e não parece haver grandes dúvidas quanto à etimologia latina: furnus.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Cursos de Verão de Grego em Edimburgo


Chega-me a notícia da realização de cursos de Verão de grego clássico, bíblico, bizantino e moderno, na Universidade de Edimburgo. Aqui fica o endereço:

http://www.summer-school.hss.ed.ac.uk/greek/

domingo, fevereiro 11, 2007

Expressões - "Quimera"

(Quimera. Prato do século IV a.C., proveniente da Apúlia)

A Quimera (Χίμαιρα) é um monstro da mitologia grega, com corpo de cabra, cabeça de leão e cauda de serpente, segundo Homero. Hesíodo, por seu lado, atribui-lhe três cabeças, de leão, de serpente e de cabra. Diz o mito que vomitava chamas, e que foi morta por Belerofonte, montado no cavalo alado Pégaso. Usa-se modernamente no sentido de um facto imaginário, uma ilusão, uma utopia.

Vejamos o que dizem Homero e Hesíodo sobre a Quimera:

"Porém quando recebeu o sinal maligno de seu genro,
primeiro mandou-o matar a terrífica Quimera.
Ela é de raça divina - não pertence à dos homens:
à frente tem a forma de leão, atrás de dragão, no meio de cabra;
seu sopro é a fúria terrível do fogo ardente.
Mas Belerofonte matou-a, obedecendo aos portentos dos deuses."

Homero, Ilíada, VI, 178-183
(tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia)

"Mas ela deu à luz também a Quimera, que sopra fogo invencível,
terrível, grande, rápida e violenta.
Tinha três cabeças: uma de leão de olhos ardentes,
outra de cabra e outra de serpente, de poderoso dragão
[pela frente leão, por trás dragão, no meio cabra,
com um sopro de fogo terrível e ardente].
A esta mataram-na Pégaso e o nobre Beleforonte."

Hesíodo, Teogonia, 319-325
(tradução de Ana Elias Pinheiro e José Ribeiro Ferreira, INCM)

sábado, fevereiro 10, 2007

Influências greco-latinas na língua árabe VII

(Fogo grego)

O أُسطول [ŭsTūl] é uma frota militar, e toma a designação do grego στόλος [stólos], com o mesmo sentido. O أُ [ŭ] epentético inicial explica-se pelo facto de o árabe evitar ter sequências de duas consoantes em início de palavra. Portanto, de novo o [t] grego é transcrito por um [T] enfático, e o [o] pela vogal de timbre mais próximo. A opção por um [ū] em vez de um [ŭ] pode ser motivado pela necessidade de preservar a sílaba tónica original (o árabe clássico não tem um sistema de sílabas tónicas, prolongando apenas as sílabas longas). Desta vez, porém, o [s] grego não é transcrito pelo equivalente enfático árabe, mas pelo correspondente exacto. Não sei árabe que chegue para explicar isto, mas talvez possa dever-se ao facto de, nesse caso, ficarem duas enfáticas seguidas.

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Normas de transcrição:

[ă] - [a] breve
[ā] - [a] longo
[ĭ] - [i] breve
[ī] - [i] longo
[ŭ] - [u] breve
[ū] - [u] longo
[kh] - [χ] semelhante ao "j" espanhol
[dh] - oclusiva sonora interdental semelhante ao inglês "th" em "the"
[th] - oclusiva surda interdental semelhante ao inglês "th" em "thing"
[DH] - [dh] enfático
[TH] - [th] enfático
[T] - [t] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[S] - [s] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[q] - oclusiva surda pronunciada no fundo da garganta
[º] - consoante laringal inexistente nas línguas europeias que conheço

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Influências greco-latinas na língua árabe VI

O بطرق [bĭTrĭq] é uma chefia militar árabe. O nome deriva, muito provavelmente, do latim "patricius", termo que designa a classe privilegiada de Roma, por oposição aos plebeus. De novo é de notar a transcrição do [t] latino por um [T] - um [t] enfático, pronunciado como que com a boca cheia. Já não é surpresa a opção por este tipo de som para transcrever palavras gregas e latinas. O mesmo se aplica ao [q] final, recorrente na transcrição do som [k], que no entanto também existe em árabe. Já a transcrição de [p] por [b] explica-se facilmente pela ausência do som [p] em árabe. A confirmar-se a etimologia desta palavra, acerca da qual Lane (*) não tem muitas certezas, será mais uma evidência da pronúncia [k] da letra "c" em qualquer posição até uma época relativamente tardia. Não é, porém, possível ter a certeza quanto à data de entrada da palavra em árabe, uma vez que os primeiros documentos usando o alfabeto árabe e apresentando uma língua a que se pode já chamar árabe são bastante tardios, de cerca do século IV d.C.

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(*) Edward William Lane, An Arabic - English Lexicon, Beirute, 1968

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Normas de transcrição:

[ă] - [a] breve
[ā] - [a] longo
[ĭ] - [i] breve
[ī] - [i] longo
[ŭ] - [u] breve
[ū] - [u] longo
[kh] - [χ] semelhante ao "j" espanhol
[dh] - oclusiva sonora interdental semelhante ao inglês "th" em "the"
[th] - oclusiva surda interdental semelhante ao inglês "th" em "thing"
[DH] - [dh] enfático
[TH] - [th] enfático
[T] - [t] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[S] - [s] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[q] - oclusiva surda pronunciada no fundo da garganta
[º] - consoante laringal inexistente nas línguas europeias que conheço

IX Festival Internacional de Teatro Tema Clássico


Já está em linha o programa definitivo do IX Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico:

http://www.teatroclassico.blogspot.com/

A não perder!

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Influências greco-latinas na língua árabe V

O جاثليق [jāthālīq] é o primaz cristão nos países árabes. A pronúncia moderna não ajuda a identificar, mas a este substantivo subjaz o grego καθολικός [katholikós]. Na verdade, o ج [jim] tinha o som [g], que de resto se conserva nas falas egípcias modernas. Portanto, a pronúncia original seria algo como [gathaliq]. De notar a transcrição do κ grego para dois sons árabes: o antigo [g] e o [q]. Os meu incipientes conhecimentos de linguística árabe não me permitem supor qualquer hipótese fundamentada, mas a acentuação grega na última sílaba poderia ter levado a uma maior intensidade na pronúncia do último κ, suavizando o κ da primeira sílaba, o que poderá ter levado a perceber a consoante com dois sons diferentes, por parte dos ouvintes arabófonos. Repito, é apenas uma ideia. Por outro lado, a transcrição do θ (theta) por ث (tha) pode indicar que, na altura do empréstimo, a letra grega já representava um som semelhante ao θ moderno.

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Normas de transcrição:

[ă] - [a] breve
[ā] - [a] longo
[ĭ] - [i] breve
[ī] - [i] longo
[ŭ] - [u] breve
[ū] - [u] longo
[kh] - [χ] semelhante ao "j" espanhol
[dh] - oclusiva sonora interdental semelhante ao inglês "th" em "the"
[th] - oclusiva surda interdental semelhante ao inglês "th" em "thing"
[DH] - [dh] enfático
[TH] - [th] enfático
[T] - [t] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[S] - [s] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[q] - oclusiva surda pronunciada no fundo da garganta
[º] - consoante laringal inexistente nas línguas europeias que conheço

8º Congresso da International Plutarch Society

Delfim Leão, da Universidade de Coimbra, fez-me chegar o anúncio do 8º Congresso da International Plutarch Society, que promete ser bastante interessante, e que passo a divulgar na íntegra.

8º Congresso da International Plutarch Society


Coimbra, 23-27 de Setembro de 2008

“Symposion e philanthropia em Plutarco”



Na antiguidade clássica, o acto ritualizado de partilhar a comida e a bebida tinha um significado especial, na medida em que constituía uma excelente oportunidade para vencer barreiras e firmar laços de natureza social e afectiva, antes de mais, mas também de cariz político e religioso. Além disso, a vertente de lazer, que acompanhava igualmente grande parte desses momentos, podia traduzir-se em criações culturais, que encontravam no symposion um enquadramento de eleição; basta pensar em manifestações artísticas como a música, a poesia, a retórica e a discussão político-filosófica, para vermos plenamente justificadas as implicações culturais destes eventos.

Aliás, estes propósitos viam-se facilitados pelo papel que o vinho detinha no banquete e que acabava por ser até mais importante do que a refeição propriamente dita, conforme se deduz do sentido primitivo do termo symposion (‘beber em conjunto’). A bebida aproximava os convivas, da mesma forma que o espaço relativamente limitado da sala de jantar e o facto de se encontrarem reclinados ajudavam a concentrar as atenções dos comensais, criando assim um cenário privilegiado para manifestações de philia e de philanthropia. Por isso, era importante que o vinho fosse misturado com água, a fim de permitir o prolongamento da conversa e da diversão, sem que o convívio descambasse em excessos, colocando em risco a harmonia do encontro.

É com este convivalis spiritus que a Sociedade Portuguesa de Plutarco (SoPlutarco) o convida a participar no 8º Congresso da International Plutarch Society, que será dedicado ao assunto “Symposion e philanthropia em Plutarco’ e que procurará, igualmente, servir de estímulo à publicação em Portugal de obras clássicas relacionadas com esta temática.


Temas para enquadramento de comunicações

Symposion (como género literário e como espaço de reunião social); técnicas argumentativas, narrativas e dramáticas no symposion; discussões político­ filosóficas e formas de expressão artística em contexto de banquete; philanthropia, philia e eros; Quaestiones convivales; Convivium Septem Sapientium.


Comissão Organizadora

José Ribeiro Ferreira (rifer@fl.uc.pt)
Delfim Ferreira Leão (leo@fl.uc.pt)
Paula Barata Dias (pabadias@hotmail.com)
Frances Titchener (f.b.titchener@usu.edu)
Carla Rosa (classic@ci.uc.pt)


Comissão Científica

Luc Van der Stockt
Aurelio Pérez Jiménez
Arnaldo do Espírito Santo
Maria Helena da Rocha Pereira
Maria de Fátima Silva
Francisco Oliveira
Maria do Céu Fialho
Nair de Castro Soares


Linhas gerais do programa

Dia 23, à tardinha: recepção dos congressistas.

Dias 24-26: apresentação de comunicações (edifício da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra).

Dia 27: visita a Conimbriga, villa Romana do Rabaçal, villa Romana de Santiago da Guarda, Tomar (em especial o convento de Cristo) e Mosteiro da Batalha ou de Alcobaça.

Encerramento do congresso, com jantar solene nas caves, na companhia de um bom akratos oinos da Bairrada.


Preços de inscrição

Apresentação de comunicação com direito a publicação*: 100 Euros.

Apresentação de comunicação com direito a publicação*, juntamente com todo o programa social (jantar de encerramento e excursão no dia 27, com almoço incluído): 150 Euros.

Participação no Congresso sem comunicação: 50 Euros (público em geral); 35 Euros (sócios da SoPlutarco e da APEC); 25 Euros (estudantes).


Programa social como opção individual suplementar

Jantar de encerramento: 30 Euros.

Excursão no dia 27, com almoço incluído: 30 Euros.


Prazos de inscrição e entrega de resumos

Inscrição com comunicação: Setembro de 2007; entrega de resumos: Janeiro de 2008.

Inscrição sem comunicação: Maio de 2008 (a partir desta data, poderão ainda ser recebidas inscrições sem comunicação, mas sofrendo um agravamento de 20 Euros).


Alojamento e alimentação

As despesas de estadia não previstas nas diferentes modalidades de inscrição serão suportadas pelos participantes. No entanto, a organização poderá fornecer sugestões de alojamento e alimentação, dentro da oferta disponível na cidade.

* A publicação de uma comunicação fica dependente da leitura e aprovação final do estudo por parte do Conselho Editorial.

domingo, fevereiro 04, 2007

Influências greco-latinas na língua árabe IV

As influências greco-latinas na língua árabe não se restringe a empréstimos morfológicos. Um exemplo de empréstimo semântico é a palavra شهيد [shăhīd], "mártir". O substantivo está relacionado com o verbo شهد [shăhădă], "testemunhar", com outro substantivo da mesma raiz, شاهد [shāĭd], "testemunha". A relação semântica com o grego μάρτυρ [martyr], com o sentido primeiro de "testemunha". O شهيد [shăhīd] é, antes de mais, aquele que morre em combate pelo Islão contra os infiéis. Por outro lado, também os que morrem durante a peregrinação a Meca são considerados mártires, e a designação شهيد [shăhīd] aparece com frequêncoa nos seus epitáfios.

Mas há outras diferenças importantes entre شهيد [shăhīd] / μάρτυρ [martyr]. Desde logo, a palavra grega tem um sentido activo, isto é, é o mártir que presta testemunho. Já a palavra árabe tem um sentido passivo, ou seja, o mártir é objecto de testemunho. As interpretações não são unânimes. No seu monumental Arabic - Englix Lexicon, Edward Lane admite que o termo se deva ou ao facto de o شهيد [shăhīd] ser convidado a testemunhar o dia do Juízo Final, ou que se deva ao facto de anjos assistirem à lavagem ritual do corpo e ao transporte da alma para o Paraíso. Bowersock acrescenta a interpretação de que Deus e os anjos testemunham a morte do شهيد [shăhīd].


Bibliografia básica para esta nota:

Edward William Lane, An Arabic - English Lexicon, Beirute, 1968
G. W. Bowersock, Martyrdom and Rome, Cambridge University Press, 1995

A imagem que ilustra esta nota foi retirada de uma tradição árabe do século X do De Materia Medica, de Dioscórides.

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Normas de transcrição:

[ă] - [a] breve
[ā] - [a] longo
[ĭ] - [i] breve
[ī] - [i] longo
[ŭ] - [u] breve
[ū] - [u] longo
[kh] - [χ] semelhante ao "j" espanhol
[dh] - oclusiva sonora interdental semelhante ao inglês "th" em "the"
[th] - oclusiva surda interdental semelhante ao inglês "th" em "thing"
[DH] - [dh] enfático
[TH] - [th] enfático
[T] - [t] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[S] - [s] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[q] - oclusiva surda pronunciada no fundo da garganta
[º] - consoante laringal inexistente nas línguas europeias que conheço

Influências greco-latinas na língua árabe III

(Manuscrito árabe do século XIII representando Aristóteles.
British Library BL36009)

Ainda relativamente aos empréstimos greco-latinos no árabe tradicional, é curioso notar a preferência pelas consoantes enfáticas ou guturais, quando se trata de transcrever os sons gregos ou latinos.

No caso de
قلم [qălăm], o som [k] grego é transcrito não pelo equivalente exacto em árabe (ك "kaf", com o som [k]), mas por um som fortemente gutural e inexistente em grego, o [q], representado pelo "qaf" (ق). Trata-se de uma oclusiva surda, pronunciada muito no fundo da garganta, e claramente distinta de [k]. Talvez nesta caso a preferência pelo som [q] se destinasse a evitar pronúncia [ĕ] da vogal breve [ă], comum em muitos dialectos árabes antes de "lam" (ل , com o som [l]). Com efeito, o "qaf" costuma forçar o [ă] que se lhe segue a ser realmente pronunciado como [ă]. O mesmo fenómeno pode explicar a utilização do "qaf" (ق) para representar o som [k] de "castrum".

Menos compreensível parece-me a transposição do [s] de "Caesar" (القيصرية [ăl-qăySărīyă]) e de "castrum (قصر [qăSr],)". A letra usada não é o "sin" (س, com valor [s]), mas sim o "sad" (ص). Esta letra representa um som inexistente em latim ou em grego: trata-se de um [s] enfático, como que pronunciado com a boca cheia, e que altera profundamente o vocalismo anterior e posterior. No caso do [ă], este adquire, no árabe moderno, um som muito próximo do [o], e que há quem compare ao "å" sueco.

Não tenho ainda conhecimentos para compreender o que terá levado à preferência por sons consonânticos inexistentes nas línguas de origem, quando a língua de chegada, o árabe, podia ter feito uma transposição fonética bastante mais próxima do original.

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Normas de transcrição:

[ă] - [a] breve
[ā] - [a] longo
[ĭ] - [i] breve
[ī] - [i] longo
[ŭ] - [u] breve
[ū] - [u] longo
[kh] - [χ] semelhante ao "j" espanhol
[dh] - oclusiva sonora interdental semelhante ao inglês "th" em "the"
[th] - oclusiva surda interdental semelhante ao inglês "th" em "thing"
[DH] - [dh] enfático
[TH] - [th] enfático
[T] - [t] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[S] - [s] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[q] - oclusiva surda pronunciada no fundo da garganta
[º] - consoante laringal inexistente nas línguas europeias que conheço

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Colóquio - MYTHOS



Miguel Ângelo, Faetonte


Decorre na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa entre 29 e 30 de Março de 2007 um colóquio subordinado aos temas "Mito, Literatura e Arte" e "Mitos Clássicos no Portugal Quinhentista. Mais informações e programa aqui.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Influências greco-latinas na língua árabe II


Uma das maneiras de saber aproximadamente como se pronunciava o latim nos seus diferentes períodos é estudar a forma que assumiram palavras latinas tomadas como empréstimo por línguas não latinas. O árabe, por usar um alfabeto diferente e sobretudo por ser uma língua bastante conservadora, permite uma percepção clara e sem ambiguidades. Por exemplo, Caesar, no sentido de "governante", tomou em árabe a forma قيصر [qăySăr], que por sua vez é a base de القيصرية [ăl-qăySărīyă], que deu em português "alcaçaria" (alojamento fortificado para mercadores em trânsito). Mais uma informação preciosa recolhida nas aulas de Língua Árabe e Cultura Islâmica do professor Dias Farinha, na FLUL.

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Normas de transcrição:

[ă] - [a] breve
[ā] - [a] longo
[ĭ] - [i] breve
[ī] - [i] longo
[ŭ] - [u] breve
[ū] - [u] longo
[kh] - [χ] semelhante ao "j" espanhol
[dh] - oclusiva sonora interdental semelhante ao inglês "th" em "the"
[th] - oclusiva surda interdental semelhante ao inglês "th" em "thing"
[DH] - [dh] enfático
[TH] - [th] enfático
[T] - [t] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[S] - [s] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[q] - oclusiva surda pronunciada no fundo da garganta
[º] - consoante laringal inexistente nas línguas europeias que conheço

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Vasos Gregos em Portugal - Aquém das Colunas de Hércules

Abre amanhã, dia 26 de Janeiro, a exposição "Vasos Gregos em Portugal - Aquém das Colunas de Hércules", com o comissariado científico das professoras Maria Helena da Rocha Pereira e Ana Margarida Arruda. Tenciono visitá-la assim que puder, e nessa altura darei mais novidades. Mais pormenores aqui.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Influências greco-latinas na língua árabe I

O contacto entre a civilização greco-latina e o mundo árabe materializou-se, entre outros aspectos, em empréstimos vocabulares. Assim, o árabe tomou do grego o substantivo κάλαμος [kálamos], com o sentido de "cana", por extensão semântica um instrumento de escrita, e criou o substantivo قلم [qălăm], para significar "caneta". É ainda a palavra usada no árabe moderno.

Outra palavra importante é o
castrum latino (fortificação), que o árabe transformou em قصر [qăSr], com o mesmo sentido. Esta forma árabe reentra no português sob a forma do topónimo Alcácer.

A inexistência de dicionários etimológicos da língua árabe dificulta, infelizmente, a investigação deste tipo de etimologia. À medida que for conhecendo mais palavras greco-latinas, nas minhas aulas de árabe com o professor Dias Farinha, actualizarei este tema.


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Normas de transcrição:

[ă] - [a] breve
[ā] - [a] longo
[ĭ] - [i] breve
[ī] - [i] longo
[ŭ] - [u] breve
[ū] - [u] longo
[kh] - [χ] semelhante ao "j" espanhol
[dh] - oclusiva sonora interdental semelhante ao inglês "th" em "the"
[th] - oclusiva surda interdental semelhante ao inglês "th" em "thing"
[DH] - [dh] enfático
[TH] - [th] enfático
[T] - [t] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[S] - [s] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[q] - oclusiva surda pronunciada no fundo da garganta
[º] - consoante laringal inexistente nas línguas europeias que conheço

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Expressões - "Mentor"


(Ulisses e as sereias)

Mentor foi o homem a quem Ulisses confiou a defesa dos seus interesses em Ítaca, quando partiu para Tróia. Era também o conselheiro de Telémaco, o que acabou por transformar este nome próprio num nome comum, com o sentido de guia, conselheiro.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Harrius Potter Et Camera Secretorum

Nunca li nenhum Harry Potter, em língua nenhuma, mas não resisti a comprar este segundo volume traduzido para latim. Apesar de não ser um entusiasta da tradução de obras contemporâneas para latim, por variadíssimas razões, penso que pode ter alguma utilidade como meio de cativar os alunos mais novos. Hoje chegou-me pelo correio este Harrius Potter Et Camera Secretorum, e já repousa ao lado do Harrius Potter et Philosophi Lapis.

Mundo clássico hoje - Pro ludis et amicitia

Desporto
"Pro ludis et amicitia" é um torneio de futebol juvenil em Itália, que tem nesta Primavera a sua vigésima edição. O nome, em latim, significa "Pelos jogos e pela amizade".


domingo, janeiro 07, 2007

Mundo clássico hoje - Charon

Serviços

Charon, empresa de segurança. O nome refere-se a Caronte (Charon, em grego), a quem estava atribuída a missão de levar os mortos, atravessando os pântanos do Aqueronte, para a outra margem do rio dos mortos. Pela travessia cobrava 1 óbulo, moeda que com essa finalidade era colocada na boca dos falecidos.

Mundo clássico hoje - Givenchy

Marketing

Givenchy, marca de produtos de beleza. Numa sua campanha faz alusão ao mito do nascimento de Helena, cuja beleza é lendária. Tendo-se apaixonado por Leda, mulher de Tíndaro, rei de Esparta, Zeus tomou a forma de um cisne, de modo a poder satisazer os seus desejos. Como resultado da união, Leda pôs um ovo, do qual nasceu Helena. Outra versão conta que Zeus perseguiu Némesis, que, após tomar várias formas, se transformou em gansa. Zeus, transformado em cisne, conseguiu por fim unir-se-lhe, em Ramnunte, na Ática. O resultado da união foi um ovo, abandonado por Némesis num bosque sagrado, e mais tarde confiado a Helena por um pastor que o tinha encontrado. Do ovo nasceu Helena, que Leda criou como filha.

Um agradecimento à Doutora Luísa de Nazaré Ferreira, da Universidade de Coimbra, que me enviou a imagem que ilustra esta entrada.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Utopia

Com tradução de Aires Augusto Nascimento e estudo introdutório de José de Pina Martins, foi agora editada pela Gulbenkian a Utopia de Thomas More. A edição é enriquecida com uma reprodução fac-similada da obra. Imprescindível.