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segunda-feira, fevereiro 02, 2009

O Oráculo de Delos


A Grécia temeu Apolo, mesmo antes de ele nascer. Sentindo já as dores do parto, Leto vagueava pelas terras e as ilhas do Egeu: era a mais delicada das deusas e possuía já todas as qualidades que o filho viria violentamente a ignorar. Pediu abrigo, mas as terras e as ilhas já conheciam Apolo antes de ele nascer e tremiam à ideia de o verem pisar o seu solo. Recusaram, e o deus sentiu a dor e a dificuldade de vir ao mundo, como os seres humanos. Por fim, Leto dirigiu-se a Delos, a ilha mais pequena e mais obscura de todas as ilhas do Egeu. Ofereceu-lhe um templo. Delos também receava. Receava que o jovem deus a desprezasse e, calcando-a com os pés, a fizesse desaparecer nas águas do mar: se assim fosse, as ondas submergi-la-iam, os polvos fariam os seus covis por cima dela, as focas habitariam na sua superfície deserta. Leto jurou: "Aqui, haverá sempre o perfumado altar de Febo e o seu santuário, e ele honrar-te-á mais do que a qualquer outra terra". Só então Delos aceitou receber a mãe e o filho.

Pietro Citati

sexta-feira, outubro 20, 2006

Expressões - "Calcanhar de Aquiles"

Filho de Peleu, um mortal, e da ninfa Tétis, Aquiles é um dos heróis homéricos mais conhecidos - aquele cuja ira o poeta se propõe cantar, na Ilíada. Não se sabe se prevendo tal destino, a sua mãe banhou-o, ainda pequeno, nas águas do Estige, o rio dos Infernos, com o objectivo de o tornar invulnerável. Porém, não se lembrou a extremosa mãe de lhe molhar também o calcanhar por onde o agarrou, não fosse o pequeno cair às águas e afogar-se. Assim, Aquiles ficou invulnerável em todo o corpo, excepto precisamente no calcanhar por onde a mãe o segurou. E foi nesse calcanhar que se cravou a seta de Páris (ou de Apolo, segundo outras versões), filho de Príamo, rei de Tróia, e que acabou por levar à morte de Aquiles, durante uma das batalhas da guerra de Tróia. Esta é apenas uma das versões do mito, talvez a mais conhecida, e que deu origem à expressão "calcanhar de Aquiles", para designar um ponto fraco.

domingo, outubro 15, 2006

Expressões - "Megera"

Pílades, Orestes e Fúria: Pormenor de sarcófago romano do século II d.C.

Ega então, n'um soberbo alarde d'indifferença, cravou o monoculo no palco. O lacaio abalára espavorido, a um repique furioso de sineta; e uma megera azeda, de roupão verde e touca á banda, rompera de dentro, meneando desesperadamente o leque, ralhando com uma mocinha delambida que batia o tacão, se esganiçava: «Pois hei de amal-o sempre! hei de amal-o sempre!»
Eça de Queirós, Os Maias, V (edição de 1888)

As Erínias são divindades infernais, que punem os crimes susceptíveis de alterar a ordem social, com especial apetência pela perseguição de homicidas e mais ainda por parricidas, a quem perseguem e frequentemente enlouquecem. Foram identificadas pelos romanos com as Fúrias. O seu número e nomes variam, mas são geralmente três, e os seus nomes Alecto, Tisífone e Megera. A primeira, Alecto, é aquela que nunca é apaziguada; a segunda, Tisífone, o espírito de vingança; a terceira, Megera, é a personificação do ódio e do mau-olhado.

No mundo grego são também designadas por Euménides, e dão o nome à terceira tragédia da única trilogia sobrevivente de Ésquilo, a Oresteia. Nesta tragédia, as Erínias perseguem Orestes, depois de este ter assassinado a sua mãe, Clitemnestra, instigado por Apolo e Electra, para vingar a morte de seu pai, Agamémnon.

Voltando à nossa Megera, acabou por se perder a ideia original de nome de divindade, e o nome próprio passou a nome comum, designando uma mulher cruel, de mau génio.