segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Influências greco-latinas na língua árabe V

O جاثليق [jāthālīq] é o primaz cristão nos países árabes. A pronúncia moderna não ajuda a identificar, mas a este substantivo subjaz o grego καθολικός [katholikós]. Na verdade, o ج [jim] tinha o som [g], que de resto se conserva nas falas egípcias modernas. Portanto, a pronúncia original seria algo como [gathaliq]. De notar a transcrição do κ grego para dois sons árabes: o antigo [g] e o [q]. Os meu incipientes conhecimentos de linguística árabe não me permitem supor qualquer hipótese fundamentada, mas a acentuação grega na última sílaba poderia ter levado a uma maior intensidade na pronúncia do último κ, suavizando o κ da primeira sílaba, o que poderá ter levado a perceber a consoante com dois sons diferentes, por parte dos ouvintes arabófonos. Repito, é apenas uma ideia. Por outro lado, a transcrição do θ (theta) por ث (tha) pode indicar que, na altura do empréstimo, a letra grega já representava um som semelhante ao θ moderno.

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Normas de transcrição:

[ă] - [a] breve
[ā] - [a] longo
[ĭ] - [i] breve
[ī] - [i] longo
[ŭ] - [u] breve
[ū] - [u] longo
[kh] - [χ] semelhante ao "j" espanhol
[dh] - oclusiva sonora interdental semelhante ao inglês "th" em "the"
[th] - oclusiva surda interdental semelhante ao inglês "th" em "thing"
[DH] - [dh] enfático
[TH] - [th] enfático
[T] - [t] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[S] - [s] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[q] - oclusiva surda pronunciada no fundo da garganta
[º] - consoante laringal inexistente nas línguas europeias que conheço

8º Congresso da International Plutarch Society

Delfim Leão, da Universidade de Coimbra, fez-me chegar o anúncio do 8º Congresso da International Plutarch Society, que promete ser bastante interessante, e que passo a divulgar na íntegra.

8º Congresso da International Plutarch Society


Coimbra, 23-27 de Setembro de 2008

“Symposion e philanthropia em Plutarco”



Na antiguidade clássica, o acto ritualizado de partilhar a comida e a bebida tinha um significado especial, na medida em que constituía uma excelente oportunidade para vencer barreiras e firmar laços de natureza social e afectiva, antes de mais, mas também de cariz político e religioso. Além disso, a vertente de lazer, que acompanhava igualmente grande parte desses momentos, podia traduzir-se em criações culturais, que encontravam no symposion um enquadramento de eleição; basta pensar em manifestações artísticas como a música, a poesia, a retórica e a discussão político-filosófica, para vermos plenamente justificadas as implicações culturais destes eventos.

Aliás, estes propósitos viam-se facilitados pelo papel que o vinho detinha no banquete e que acabava por ser até mais importante do que a refeição propriamente dita, conforme se deduz do sentido primitivo do termo symposion (‘beber em conjunto’). A bebida aproximava os convivas, da mesma forma que o espaço relativamente limitado da sala de jantar e o facto de se encontrarem reclinados ajudavam a concentrar as atenções dos comensais, criando assim um cenário privilegiado para manifestações de philia e de philanthropia. Por isso, era importante que o vinho fosse misturado com água, a fim de permitir o prolongamento da conversa e da diversão, sem que o convívio descambasse em excessos, colocando em risco a harmonia do encontro.

É com este convivalis spiritus que a Sociedade Portuguesa de Plutarco (SoPlutarco) o convida a participar no 8º Congresso da International Plutarch Society, que será dedicado ao assunto “Symposion e philanthropia em Plutarco’ e que procurará, igualmente, servir de estímulo à publicação em Portugal de obras clássicas relacionadas com esta temática.


Temas para enquadramento de comunicações

Symposion (como género literário e como espaço de reunião social); técnicas argumentativas, narrativas e dramáticas no symposion; discussões político­ filosóficas e formas de expressão artística em contexto de banquete; philanthropia, philia e eros; Quaestiones convivales; Convivium Septem Sapientium.


Comissão Organizadora

José Ribeiro Ferreira (rifer@fl.uc.pt)
Delfim Ferreira Leão (leo@fl.uc.pt)
Paula Barata Dias (pabadias@hotmail.com)
Frances Titchener (f.b.titchener@usu.edu)
Carla Rosa (classic@ci.uc.pt)


Comissão Científica

Luc Van der Stockt
Aurelio Pérez Jiménez
Arnaldo do Espírito Santo
Maria Helena da Rocha Pereira
Maria de Fátima Silva
Francisco Oliveira
Maria do Céu Fialho
Nair de Castro Soares


Linhas gerais do programa

Dia 23, à tardinha: recepção dos congressistas.

Dias 24-26: apresentação de comunicações (edifício da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra).

Dia 27: visita a Conimbriga, villa Romana do Rabaçal, villa Romana de Santiago da Guarda, Tomar (em especial o convento de Cristo) e Mosteiro da Batalha ou de Alcobaça.

Encerramento do congresso, com jantar solene nas caves, na companhia de um bom akratos oinos da Bairrada.


Preços de inscrição

Apresentação de comunicação com direito a publicação*: 100 Euros.

Apresentação de comunicação com direito a publicação*, juntamente com todo o programa social (jantar de encerramento e excursão no dia 27, com almoço incluído): 150 Euros.

Participação no Congresso sem comunicação: 50 Euros (público em geral); 35 Euros (sócios da SoPlutarco e da APEC); 25 Euros (estudantes).


Programa social como opção individual suplementar

Jantar de encerramento: 30 Euros.

Excursão no dia 27, com almoço incluído: 30 Euros.


Prazos de inscrição e entrega de resumos

Inscrição com comunicação: Setembro de 2007; entrega de resumos: Janeiro de 2008.

Inscrição sem comunicação: Maio de 2008 (a partir desta data, poderão ainda ser recebidas inscrições sem comunicação, mas sofrendo um agravamento de 20 Euros).


Alojamento e alimentação

As despesas de estadia não previstas nas diferentes modalidades de inscrição serão suportadas pelos participantes. No entanto, a organização poderá fornecer sugestões de alojamento e alimentação, dentro da oferta disponível na cidade.

* A publicação de uma comunicação fica dependente da leitura e aprovação final do estudo por parte do Conselho Editorial.

domingo, fevereiro 04, 2007

Influências greco-latinas na língua árabe IV

As influências greco-latinas na língua árabe não se restringe a empréstimos morfológicos. Um exemplo de empréstimo semântico é a palavra شهيد [shăhīd], "mártir". O substantivo está relacionado com o verbo شهد [shăhădă], "testemunhar", com outro substantivo da mesma raiz, شاهد [shāĭd], "testemunha". A relação semântica com o grego μάρτυρ [martyr], com o sentido primeiro de "testemunha". O شهيد [shăhīd] é, antes de mais, aquele que morre em combate pelo Islão contra os infiéis. Por outro lado, também os que morrem durante a peregrinação a Meca são considerados mártires, e a designação شهيد [shăhīd] aparece com frequêncoa nos seus epitáfios.

Mas há outras diferenças importantes entre شهيد [shăhīd] / μάρτυρ [martyr]. Desde logo, a palavra grega tem um sentido activo, isto é, é o mártir que presta testemunho. Já a palavra árabe tem um sentido passivo, ou seja, o mártir é objecto de testemunho. As interpretações não são unânimes. No seu monumental Arabic - Englix Lexicon, Edward Lane admite que o termo se deva ou ao facto de o شهيد [shăhīd] ser convidado a testemunhar o dia do Juízo Final, ou que se deva ao facto de anjos assistirem à lavagem ritual do corpo e ao transporte da alma para o Paraíso. Bowersock acrescenta a interpretação de que Deus e os anjos testemunham a morte do شهيد [shăhīd].


Bibliografia básica para esta nota:

Edward William Lane, An Arabic - English Lexicon, Beirute, 1968
G. W. Bowersock, Martyrdom and Rome, Cambridge University Press, 1995

A imagem que ilustra esta nota foi retirada de uma tradição árabe do século X do De Materia Medica, de Dioscórides.

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Normas de transcrição:

[ă] - [a] breve
[ā] - [a] longo
[ĭ] - [i] breve
[ī] - [i] longo
[ŭ] - [u] breve
[ū] - [u] longo
[kh] - [χ] semelhante ao "j" espanhol
[dh] - oclusiva sonora interdental semelhante ao inglês "th" em "the"
[th] - oclusiva surda interdental semelhante ao inglês "th" em "thing"
[DH] - [dh] enfático
[TH] - [th] enfático
[T] - [t] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[S] - [s] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[q] - oclusiva surda pronunciada no fundo da garganta
[º] - consoante laringal inexistente nas línguas europeias que conheço

Influências greco-latinas na língua árabe III

(Manuscrito árabe do século XIII representando Aristóteles.
British Library BL36009)

Ainda relativamente aos empréstimos greco-latinos no árabe tradicional, é curioso notar a preferência pelas consoantes enfáticas ou guturais, quando se trata de transcrever os sons gregos ou latinos.

No caso de
قلم [qălăm], o som [k] grego é transcrito não pelo equivalente exacto em árabe (ك "kaf", com o som [k]), mas por um som fortemente gutural e inexistente em grego, o [q], representado pelo "qaf" (ق). Trata-se de uma oclusiva surda, pronunciada muito no fundo da garganta, e claramente distinta de [k]. Talvez nesta caso a preferência pelo som [q] se destinasse a evitar pronúncia [ĕ] da vogal breve [ă], comum em muitos dialectos árabes antes de "lam" (ل , com o som [l]). Com efeito, o "qaf" costuma forçar o [ă] que se lhe segue a ser realmente pronunciado como [ă]. O mesmo fenómeno pode explicar a utilização do "qaf" (ق) para representar o som [k] de "castrum".

Menos compreensível parece-me a transposição do [s] de "Caesar" (القيصرية [ăl-qăySărīyă]) e de "castrum (قصر [qăSr],)". A letra usada não é o "sin" (س, com valor [s]), mas sim o "sad" (ص). Esta letra representa um som inexistente em latim ou em grego: trata-se de um [s] enfático, como que pronunciado com a boca cheia, e que altera profundamente o vocalismo anterior e posterior. No caso do [ă], este adquire, no árabe moderno, um som muito próximo do [o], e que há quem compare ao "å" sueco.

Não tenho ainda conhecimentos para compreender o que terá levado à preferência por sons consonânticos inexistentes nas línguas de origem, quando a língua de chegada, o árabe, podia ter feito uma transposição fonética bastante mais próxima do original.

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Normas de transcrição:

[ă] - [a] breve
[ā] - [a] longo
[ĭ] - [i] breve
[ī] - [i] longo
[ŭ] - [u] breve
[ū] - [u] longo
[kh] - [χ] semelhante ao "j" espanhol
[dh] - oclusiva sonora interdental semelhante ao inglês "th" em "the"
[th] - oclusiva surda interdental semelhante ao inglês "th" em "thing"
[DH] - [dh] enfático
[TH] - [th] enfático
[T] - [t] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[S] - [s] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[q] - oclusiva surda pronunciada no fundo da garganta
[º] - consoante laringal inexistente nas línguas europeias que conheço

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Colóquio - MYTHOS



Miguel Ângelo, Faetonte


Decorre na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa entre 29 e 30 de Março de 2007 um colóquio subordinado aos temas "Mito, Literatura e Arte" e "Mitos Clássicos no Portugal Quinhentista. Mais informações e programa aqui.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Influências greco-latinas na língua árabe II


Uma das maneiras de saber aproximadamente como se pronunciava o latim nos seus diferentes períodos é estudar a forma que assumiram palavras latinas tomadas como empréstimo por línguas não latinas. O árabe, por usar um alfabeto diferente e sobretudo por ser uma língua bastante conservadora, permite uma percepção clara e sem ambiguidades. Por exemplo, Caesar, no sentido de "governante", tomou em árabe a forma قيصر [qăySăr], que por sua vez é a base de القيصرية [ăl-qăySărīyă], que deu em português "alcaçaria" (alojamento fortificado para mercadores em trânsito). Mais uma informação preciosa recolhida nas aulas de Língua Árabe e Cultura Islâmica do professor Dias Farinha, na FLUL.

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Normas de transcrição:

[ă] - [a] breve
[ā] - [a] longo
[ĭ] - [i] breve
[ī] - [i] longo
[ŭ] - [u] breve
[ū] - [u] longo
[kh] - [χ] semelhante ao "j" espanhol
[dh] - oclusiva sonora interdental semelhante ao inglês "th" em "the"
[th] - oclusiva surda interdental semelhante ao inglês "th" em "thing"
[DH] - [dh] enfático
[TH] - [th] enfático
[T] - [t] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[S] - [s] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[q] - oclusiva surda pronunciada no fundo da garganta
[º] - consoante laringal inexistente nas línguas europeias que conheço

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Vasos Gregos em Portugal - Aquém das Colunas de Hércules

Abre amanhã, dia 26 de Janeiro, a exposição "Vasos Gregos em Portugal - Aquém das Colunas de Hércules", com o comissariado científico das professoras Maria Helena da Rocha Pereira e Ana Margarida Arruda. Tenciono visitá-la assim que puder, e nessa altura darei mais novidades. Mais pormenores aqui.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Influências greco-latinas na língua árabe I

O contacto entre a civilização greco-latina e o mundo árabe materializou-se, entre outros aspectos, em empréstimos vocabulares. Assim, o árabe tomou do grego o substantivo κάλαμος [kálamos], com o sentido de "cana", por extensão semântica um instrumento de escrita, e criou o substantivo قلم [qălăm], para significar "caneta". É ainda a palavra usada no árabe moderno.

Outra palavra importante é o
castrum latino (fortificação), que o árabe transformou em قصر [qăSr], com o mesmo sentido. Esta forma árabe reentra no português sob a forma do topónimo Alcácer.

A inexistência de dicionários etimológicos da língua árabe dificulta, infelizmente, a investigação deste tipo de etimologia. À medida que for conhecendo mais palavras greco-latinas, nas minhas aulas de árabe com o professor Dias Farinha, actualizarei este tema.


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Normas de transcrição:

[ă] - [a] breve
[ā] - [a] longo
[ĭ] - [i] breve
[ī] - [i] longo
[ŭ] - [u] breve
[ū] - [u] longo
[kh] - [χ] semelhante ao "j" espanhol
[dh] - oclusiva sonora interdental semelhante ao inglês "th" em "the"
[th] - oclusiva surda interdental semelhante ao inglês "th" em "thing"
[DH] - [dh] enfático
[TH] - [th] enfático
[T] - [t] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[S] - [s] enfático, pronunciado como que com a boca cheia
[q] - oclusiva surda pronunciada no fundo da garganta
[º] - consoante laringal inexistente nas línguas europeias que conheço

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Expressões - "Mentor"


(Ulisses e as sereias)

Mentor foi o homem a quem Ulisses confiou a defesa dos seus interesses em Ítaca, quando partiu para Tróia. Era também o conselheiro de Telémaco, o que acabou por transformar este nome próprio num nome comum, com o sentido de guia, conselheiro.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Harrius Potter Et Camera Secretorum

Nunca li nenhum Harry Potter, em língua nenhuma, mas não resisti a comprar este segundo volume traduzido para latim. Apesar de não ser um entusiasta da tradução de obras contemporâneas para latim, por variadíssimas razões, penso que pode ter alguma utilidade como meio de cativar os alunos mais novos. Hoje chegou-me pelo correio este Harrius Potter Et Camera Secretorum, e já repousa ao lado do Harrius Potter et Philosophi Lapis.

Mundo clássico hoje - Pro ludis et amicitia

Desporto
"Pro ludis et amicitia" é um torneio de futebol juvenil em Itália, que tem nesta Primavera a sua vigésima edição. O nome, em latim, significa "Pelos jogos e pela amizade".


domingo, janeiro 07, 2007

Mundo clássico hoje - Charon

Serviços

Charon, empresa de segurança. O nome refere-se a Caronte (Charon, em grego), a quem estava atribuída a missão de levar os mortos, atravessando os pântanos do Aqueronte, para a outra margem do rio dos mortos. Pela travessia cobrava 1 óbulo, moeda que com essa finalidade era colocada na boca dos falecidos.

Mundo clássico hoje - Givenchy

Marketing

Givenchy, marca de produtos de beleza. Numa sua campanha faz alusão ao mito do nascimento de Helena, cuja beleza é lendária. Tendo-se apaixonado por Leda, mulher de Tíndaro, rei de Esparta, Zeus tomou a forma de um cisne, de modo a poder satisazer os seus desejos. Como resultado da união, Leda pôs um ovo, do qual nasceu Helena. Outra versão conta que Zeus perseguiu Némesis, que, após tomar várias formas, se transformou em gansa. Zeus, transformado em cisne, conseguiu por fim unir-se-lhe, em Ramnunte, na Ática. O resultado da união foi um ovo, abandonado por Némesis num bosque sagrado, e mais tarde confiado a Helena por um pastor que o tinha encontrado. Do ovo nasceu Helena, que Leda criou como filha.

Um agradecimento à Doutora Luísa de Nazaré Ferreira, da Universidade de Coimbra, que me enviou a imagem que ilustra esta entrada.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Utopia

Com tradução de Aires Augusto Nascimento e estudo introdutório de José de Pina Martins, foi agora editada pela Gulbenkian a Utopia de Thomas More. A edição é enriquecida com uma reprodução fac-similada da obra. Imprescindível.

sexta-feira, novembro 17, 2006

"E sem latim?"



Transcrevo a crónica de Jorge Silva Melo que saiu hoje no suplemento Mil Folhas do jornal Público (página 5).

«E sem latim?

Ainda naquela Rua Anchieta que, ao sábado, se ornamenta de preciosos livros, abro o belo volume negro dos "4 Poètes Portugais", edição (1970) da Gulbenkian e das Presses Universitaires de França, que acabo de encontrar.

Os meus amigos estrangeiros pararam, estávamos na esquina da Bertrand. Ávido, eu procurava, em Cesário, para lhes ler em voz alta e no local certo, o que ele diz da jovem actriz que sobe o Chiado revendo o seu texto ao ir para um teatro, que eram, todos, ali por perto. Mas, ao abrir, encontrei foi "O Sentimento de um Ocidental", não resisti, e li, em francês, os versos das "Ave-Marias". Há décadas que o faço, mal encontro um exemplar desses que nunca tenho, sempre ofereci (com selecção, tradução e prefácio de Sophia).

Lembro-me, há já quase trinta anos, da dificuldade que tive, nesta mesma esquina, em explicar a René Allio e a Christine Laurent o significado de "taciturnité", a rara maneira que o tradutor teve para verter a sorumbática "soturnidade" do poema de Cesário.

Mas, hoje, vejo o olhar parado de um dos meus interlocutores, homem que seria, há anos, de meia-idade, e, agora, ainda será jovem, entre os 30 e os 40 anos. "E porque é que se chama 'Angelus' esse poema?", acaba por me perguntar. Explico-lhe que é a tradução de "ave-marias", explico-lhe o que são, maneira de as igrejas anunciarem o cair da noite, o regresso a casa, o fim do trabalho. Ele, que até é homem culto, só se lembra de Millet, dois camponeses dobrados sobre o campo lavrado. "Mas porque é que um poema tão urbano como esse recorre à imagem do campo?" Já não tive tempo para o esclarecer que a noite cai no campo e também na cidade e que a igreja, onde está, onde chegou, o assinala, convidando ao recolhimento, tentando superar (naquela mesma hora em que, para os laicos, desperta) o "absurdo desejo de sofrer": os sinos da Igreja dos Mártires desataram a repicar, enchendo a agitada rua de uma canção que parecia não mais ter fim.

O meu interlocutor não tivera educação religiosa, para ele um sino é qualquer sino, não lhes entende a língua. E, mesmo no centro do Chiado, ignora para que tocam os carrilhões dividindo o dia nas suas tarefas e loas.

E ponho-me a pensar se haverá muitos portugueses (dos poucos que abrem livros) que, ao abrirem o Cesário, ainda sabem o que são estas "ave-marias" e porque assim se chama esta primeira parte do mais belo dos poemas. Já quase ninguém o sabe, aposto. Em próximas edições, haverá também para isso nota de rodapé, essa tremenda lápide que, em memória do sentido perdido, assinala as palavras mortas. Sim, que as palavras morrem e os livros vão-se enchendo de explicações que atestam o bom comportamento do defunto, os seus bons serviços.

Nunca pensei ter de explicar a alguém o que são, na divisão do dia, as "ave-marias", nem mesmo o "angelus" a franceses, muito menos pensei que teria de traduzir (como?) "Stabat Mater" (mas tanta gente me pergunta, que surpresa estranha, eis-me de outros tempos eu que me pensava tão de agora) e que, quando digo (e digo tantas vezes) "Ecce homo", o meu interlocutor talvez pense que estou a falar de alguma parada "gay".

Foi-se, com a vida, o latim da igreja, foi-se, das escolas, o latim. Até o de Virgílio, "lacrimae rerum". E como, na Assembleia, faria bem um pouco de Salústio ao falar-se das SCUT.

E nós, que "vivemos dos nomes" (estupenda sentença de Joyce que me recupera Antonio Tarantino), cá vamos falando, filhos de língua incógnita, vivendo ao lado de sinos que tocam sem sabermos porquê, deixando esvaírem-se as melhores das poesias, devolvendo-as aos fariseus que da vida nada sabem, prescindindo de saber.

Vem, agora, o Papa autorizar o regresso do latim ao eco sem nome das basílicas. Eu queria era que fosse nas escolas, onde a língua se molda, onde se deveria era buscar a forma para nomear esta ansiedade de se ser rapaz ou rapariga.

"Não se pode viver sem Rosselini!", berrava nas ruas o cineclubista apaixonado por Bertolucci. E sem latim, podemos?

Podemos ignorar o carrilhão que nos atropela a conversa, passar incólume ao lado dos fundamentos daquilo que pensamos, seguir o nosso caminho sem ver as pedras que os romanos (os escravos dos romanos, claro) transportaram, podemos ignorar tudo o que nos fez viver assim, bastardos, neste eterno presente nascido esta manhã na revista do dia? Podemos viver sem latim?

(E eu que nem bom aluno fui, ai como me arrependo.)»

sexta-feira, novembro 10, 2006

Simon Goldhill, "Amor, sexo e tragédia. A contemporaneidade do classicismo"

Um dos furores editoriais do ano, que se explica pelo título apelativo. Vamos ver se merece a pena. Esperei algum tempo, queria comprar o original, que é sempre muito mais barato, meso com portes de envio, mas rendi-me, e comprei a tradução. Espero não me arrepender.

Carlos Fabião, "A Herança Romana em Portugal"


Excelente qualidade gráfica, e aposto que a qualidade científica será ainda superior (pena alguns erros na tradução de nomes latinos). É bom ver que empresas como os CTT apostam na divulgação científica, sobretudo recorrendo a pessoas com a competência e ciência do Carlos Fabião.

Francisco de Oliveira (coord.), "Génese e Consolidação da Ideia de Europa. Volume III. O Mundo Romano"

Vários artigos sobre génese e consolidação da ideia de Europa. Estou particularmente interessado nos artigos de Antonio Alvar Ezquerra ("Europa en el imaginario de los poetas latinos"), Vasco Mantas ("As vias de comunicação na Europa romana"), Marc Mayer ("Constantino el Grande: desconstrucción y construcción de un imperio") e Arnaldo do Espírito Santo ("Imagens do Amor em Santo Agostinho"). É pena que, no índice, os nomes e títulos espanhóis tenham visto a sua ortografia abastardada.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Filoctetes na Cornucópia (III)

A minha amiga e colega Ana María Tarrío fez-me chegar fotografias da representação do Filoctetes de Sófocles que a Cornucópia leva a cabo, tendo por base a recriação poética de Frederico Lourenço. Ainda não consegui ir ver, mas conto fazê-lo este Domingo. Deixo aqui uma fotografia para abrir o apetite, a mim e aos que perdem tempo a ler este blogue.



Recriação poética do Filoctetes de Sófocles, por Frederico Lourenço

Frederico Lourenço recria poeticamente o Filoctetes de Sófocles. Ainda não tive oportunidade de ler esta recriação, mas não podia deixar de a anunciar aqui, prevendo desde já a sua qualidade literária, motivada tanto pelo texto base como pela pena de Frederico Lourenço. É este o texto que serve de base à representação que está a ser levada a cabo pela Cornucópia.