domingo, março 22, 2009

A Presença Grega

No dia 7 de Março, saiu na Actual (pp. 12–14), com o Expresso, uma entrevista de António Guerreiro à Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, Professora Catedrática Jubilada da Universidade de Coimbra. É essa entrevista que a seguir se reproduz, com algumas emendas e notas.

 

A presença grega

A literatura, a cultura e a arte gregas são o território de Maria Helena da Rocha Pereira, uma universitária insigne.

 

Apesar dos constrangimentos que as reformas sucessivas do ensino secundário impuseram aos estudos do Latim e do Grego, nos últimos anos têm sido publicados muitos trabalhos e traduções de um reputado grupo de classicistas. A professora Maria Helena da Rocha Pereira é a decana da disciplina, uma universitária (de Coimbra) que alcançou um vasto prestígio e autoridade, reconhecidos muito para além dos meios universitários.

 

A professora é em Portugal a representante mais ilustre de uma disciplina, os estudos clássicos, que era até ao final do século XIX, a disciplina mestra das Humanidades, mas é hoje um resíduo na formação universitária...

Na verdade, é uma disciplina que tem perdido muitos alunos. Há hoje um endeusamento da tecnologia, não da ciência. A cultura clássica está na base de toda a cultura europeia. Quando na reforma de 1957 se introduziu a disciplina de História da Cultura Clássica, comum a todos os cursos de Letras, esta foi muito apreciada tanto na Universidade de Coimbra como na de Lisboa. Nessa época, os alunos tinham tido alguns anos de Latim, alguns tinham mesmo tido Grego. Eu, por exemplo, não tive Grego, só o aprendi na Faculdade. Os alunos dessa disciplina comum encontravam-se numa situação variada quanto ao conhecimento dos textos e à competência para os ler no original. Razão pela qual comecei logo a traduzir os textos fundamentais e a distribuí-los em folhas. Era o que se podia fazer na altura.

 

Não havia traduções portuguesas dos clássicos?

Havia muitas traduções, mas não eram traduções directas, eram pseudo-traduções, feitas de outras línguas. Hoje estamos mais bem servidos, nesse aspecto. Mas havia uma série de textos que os alunos tinham de conhecer para perceber as minhas aulas. Em 1959, publiquei a primeira edição da antologia Hélade, tornando acessíveis os textos fundamentais da cultura grega. Depois, traduzi obras inteiras de vários autores, por exemplo A República, de Platão. Mas não é que goste de traduzir. Tenho passado a vida traduzir por necessidade. Aquilo de que gosto é do sabor do original, sinto sempre que estou a atraiçoar. O Teatro Universitário de Coimbra, no tempo de Paulo Quintela, pediu-me que eu traduzisse A Medeia, de Eurípides. E também traduzi para eles a Antígona. Paulo Quintela fazia umas encenações maravilhosas, tinha resolvido muito bem a maneira de o coro se exprimir, algo muito difícil porque não podia ser através do canto, uma vez que não podemos reconstituir a música da Antiguidade. Era uma coisa maravilhosa ouvir os coros das tragédias gregas encenadas por ele.

 

Por qual dos três géneros canónicos, o épico, o lírico e o dramático, se sentiu mais atraída?

É difícil dizer. Há quem diga que eu gosto sobretudo da tragédia. Talvez seja verdade. Porque foi o fascínio pela Oresteia, de Ésquilo, um dos factores que fizeram com que escolhesse o curso de Clássicas. Eu andava no Liceu, tinha 13 anos, e li uma excelente tradução francesa da Oresteia e fiquei maravilhada.

 

Entrou para a Faculdade sem saber Grego. Ao fim de quanto tempo estava em condições de ler e apreciar os textos?

No fim do curso conseguia ler os mais simples. Depois fui estudar para Oxford e um dos professores, ao saber que eu tinha apenas quatro anos de Grego, disse-me: "A Senhora é capaz de ler no original, à primeira vista, um texto seguido, mesmo de Píndaro e Ésquilo?". Eu respondi: "Desses autores, não".

 

Quando acabou o curso foi logo com uma bolsa para Oxford?

Não imediatamente. Fiquei ainda cá três anos, no Porto, em casa dos meus pais. E durante esses três anos fui estudando e preparando aquilo que desejava que fosse a minha tese de doutoramento, que acabou por ser "Concepções Helénicas de Felicidade no Além, de Homero a Platão". Durante parte desses três anos ainda ensinei no recém-fundado Centro de Estudos Humanísticos, que foi o embrião da Faculdade de Letras.

 

Nessa tese faz uma leitura "literária" de Platão?

Não é propriamente um estudo filosófico, para o qual não teria competência, mas um estudo dos vários aspectos complexos d' A República, também enquanto obra de arte. Em Oxford, a Faculdade de Litterae Humaniores (era assim que se chamava) compreendia a Filosofia Antiga. Achava-se, e muito bem, que para compreender a Filosofia Antiga era preciso saber ler no original.

 

Sentiu uma grande diferença (nos métodos, nos objectos de estudo) entre aquilo que tinham sido os seus estudos e aquilo que Oxford lhe proporcionou?

Lá fui confrontada com uma diversidade de assuntos que estavam completamente ausentes dos estudos, em Portugal. Eu tinha o estatuto de "estudante reconhecida", não pertencente a nenhum College, mas já licenciada por aqui e tendo direito a um Director de Estudos, que foi o professor Dodds, autor de um famoso livro, Os Gregos e o Irracional. Lá aprendi Crítica Textual, Paleografia Grega, Epigrafia, enfim, tudo isso que me faltava. E estudei os vasos gregos, com o maior especialista da época, John Beazley.

 

Por cá, imperava a ideia de que o Latim e o Grego, enquanto "línguas mortas", deviam ser objecto de uma aprendizagem muito voltada para a gramática e para o exercício mecânico da tradução.

Sim, os textos eram meramente campos de exercício. Imperava aquele ditado: "Conjuga e declina, saberás a língua latina". Foi com essa visão asfixiante que eu quis acabar. É certo que essa aprendizagem implica um exercício de atenção e de destreza mental que têm de existir. Mas é muito pouco, em relação a toda a riqueza cultural e literária dos textos da Antiguidade. Por exemplo, assistir ao nascimento da ciência, nos Gregos, é uma coisa maravilhosa. Pouca gente sabe que o movimento da Terra à volta do Sol foi descoberto por um Grego, Aristarco de Samos. Mas isso causou a indignação de outros sábios. E depois Ptolemeu, que teve uma grande influência, negou esse movimento. E essa descoberta ficou congelada até ao Renascimento, até Copérnico.

 

A massa dos textos da Antiguidade que nos chegaram é apenas uma ínfima parte do que foi escrito. Como se sente o estudioso perante esta falta?

De um modo geral, chegaram-nos fragmentos ou citações feitas por outros. Mas vão ainda aparecer muitas coisas. Sabe-se que a erupção do Vesúvio, que destruiu Pompeios e Herculano, reduziu a cinzas a biblioteca de um filósofo. Tudo leva a crer que nessa biblioteca de papiros havia muitas obras dos filósofos gregos. Por enquanto não há meio de desenrolar esses papiros sem que eles não se desfaçam por completo. Pelo que os especialistas resolveram aguardar até que haja condições técnicas para os ler. E estão sempre a aparecer papiros. Muitos, no Norte de África, porque o clima e o solo arenoso favorece a conservação. Outros, noutros lados.

 

A massa documental tem vindo a ser aumentada?

Pois tem, com descobertas constantes. Há autores cuja obra foi bastante ampliada.

 

Também trabalhou na edição de textos?

Sim. Do Latim, tenho a edição (a primeira que fiz) de textos de Pedro Hispano, para efeitos da história da Medicina. Durante muitos anos andei pelas bibliotecas da Europa atrás dos escritos de Pedro Hispano. Tanto quanto se sabe, não há nenhum desses escritos em Portugal. Foram livros utilizadíssimos para o ensino, quer na Medicina quer na Filosofia.

 

Onde é que os encontrou?

A maior parte na Inglaterra, mas também em França e na Itália. E, surpreendentemente, uma vez fui à Polónia, com um grupo de historiadores de Medicina de vários países, e o director de uma biblioteca mostrou-nos algumas preciosidades. Uma delas era a matrícula de Copérnico, que estudou em Cracóvia, e a outra era um manuscrito de Pedro Hispano que eu não conhecia. Mas voltando a meu trabalho filológico, a coisa mais importante que fiz foi a edição crítica de Pausânias, para a Biblioteca Teubneriana (uma colecção de edições críticas de textos gregos e latinos) para o qual fui convidada pela Academia das Ciências de Berlim.

 

Passou algum tempo na Alemanha?

Não. Passei por Berlim mas só consegui ir à Alemanha há pouco mais de dez anos. Fui representar Portugal num congresso, em Bona, que era então a capital, na parte relativa às Letras. E aproveitei para ficar mais tempo e ir a Berlim.

 

Mas sabe Alemão...

Estudei no Liceu. Precisamente no ano em que devia começar a estudar uma língua estrangeira, foi introduzida a possibilidade de optar entre o Inglês e o Alemão. E eu pensei que queria estudar as duas e começava pela mais difícil. Foi uma das melhores decisões da minha vida.

 

Wilamowitz e toda a tradição filológica alemã foram importantes para si.

Muito. O professor de quem falei há pouco, que me perguntou se eu sabia traduzir à primeira vista, era alemão, tinha fugido da Alemanha, e tinha sido discípulo de Wilamowitz . A Inglaterra e a Alemanha são os dois países mais importantes no domínio da filologia clássica. É curioso que não sejam os países latinos. Ainda hoje se estuda muito mais Latim e Grego na Alemanha e na Inglaterra do que nos países latinos. Mas essa edição do Pausânias, fi-la sem sair do país. Naquele tempo mandaram-me tudo em microfilmes que eu mandava revelar porque os meus olhos não aguentam aquele tremular das máquinas de ampliar e dos computadores.

 

Trabalhou mais sobre a cultura e os textos gregos do que sobre os latinos...

Sim. Mas também trabalhei razoavelmente sobre a cultura latina. Há um volume que vai sair agora, na Gulbenkian, precisamente sobre a parte romana da cultura clássica.

 

E também traduziu do Latim?

Fiz uma antologia, mais pequena mas comparável à que fiz para os textos gregos.

 

E aqui, em Portugal, no tempo em que foi estudante, quem eram os grandes representantes dos Estudos Clássicos?

Em Lisboa, havia o Epifânio, o José Joaquim Nunes, o Leite de Vasconcelos, que se tornaram mais famosos pelo trabalho dedicado à filologia portuguesa. Aqui, em Coimbra, havia o professor Carlos Ventura, de quem fui Assistente, que aliás me aconselhou vivamente a continuar os estudos em Oxford, numa altura em que aqui ainda não admitiam senhoras.

 

Mas acabaram por admiti-la...

Havia um exemplo ilustre noutra área, Carolina Michaëlis, que foi convidada para ser professora Catedrática. Mas a primeira a prestar provas nesta Universidade fui eu.

 

Sentiu essa prova como uma marca histórica?

Tinha pelo menos a consciência das dificuldades. A secção de Clássicas, com a partida de um professor para Lisboa [o Professor Rebelo Gonçalves], ficou com uma vaga. E o professor Carlos Ventura propôs o meu nome ao Conselho, tinha acabado de chegar de Oxford. Começou aí, não sem dificuldades, a minha carreira académica. Fui integrada num mundo de homens. Tudo isto visto hoje, percebemos como as coisas mudaram muito.

 

O que é bastante relevante no seu trabalho é o facto de se ter desembaraçado de um certo positivismo, da consideração dos textos como meros documentos históricos...

O professor Ventura, de quem fui Assistente, aceitava as minhas ideias. Eu achava que estudar Grego e não fazer ideia nenhuma dos monumentos era uma falta terrível. E pedi-lhe autorização para fazer umas sessões com projecções para mostrar os monumentos de Atenas e de Roma. Mas foi difícil de conseguir porque não havia máquinas de projecção na Faculdade. Tanto que a primeira sessão que fiz foi na Faculdade de Ciências. Mas depois consegui fazer outras já em Letras. Até há uma história curiosa que eu contei há tempos, numa homenagem ao meu falecido colega de Geografia, professor Fernandes Martins. Um professor de Medicina que tinha sido condiscípulo do meu pai, e que era amador de fotografia, tinha uma dessas máquinas muito antigas de projecção e disse-me que me emprestava a máquina mas na condição de ser o professor Fernandes Martins a trabalhar com ela. E este aceitou, o que deixou toda a gente na Faculdade boquiaberta, ao ver um professor a ajudar um assistente.

 

E começou a interessar-se por Arqueologia. E também por vasos gregos...

Arqueologia e Arte. Mais tarde haveria de ensinar História da Arte Grega. E fui comissária científca de uma exposição de vasos gregos, no Museu Nacional de Arqueologia, partindo de uma colecção particular, dos vasos dos próprio museu e também, e onde também havia o vaso da colecção Gulbenkian, que é o melhor de todos. Eu tinha estudado com o professor Beazley, que é o maior especialista mundial de vasos gregos. Foi sempre algo que me fascinou, os vasos gregos, desde a primeira vez em que os vi no Louvre. O meu Director de Estudos, em Oxford, o professor Dodds, disse-me um dia: "não quer ir ouvir o professor Beazley? Olhe que um dia, se disser que esteve em Oxford nesta altura e que não o ouviu, ficarão admirados". E eu comecei a ir às aulas dele. Ele já sabia que tinham aparecido vasos gregos em Alcácer do Sal, os primeiros que apareceram em Portugal.

 

Viajou muito de propósito para ver arte grega nos museus?

Em todos os continentes. Conto-lhe uma pequena anedota. Quando o Metropolitan Museum de Nova Iorque comprou um vaso que é considerado o melhor de todos, por um milhão de dólares, eu, por altura de uma viagem ao Canadá, quis ir também a Nova Iorque para ver o vaso. Tive que pedir um visto no consulado. Na entrevista, a senhora perguntou-me porque é que eu queria ir a Nova Iorque. Eu disse-lhe que queria ver os vasos que estavam no Metropolitan. A senhora achou muito estranho, até eu lhe dizer que era professora de Arte Grega.

 

E à Grécia, tem ido muitas vezes? O que é que sentiu, da primeira vez?

Atenas não é uma cidade belíssima como Roma, por exemplo, porque foi estragada, foi desprezada durante o domínio turco. Mas tem aquela maravilha que é a Acrópole. E quando pela primeira vez me aproximei da Acrópole, era já ao pôr-do-sol e os mármores ficam todos róseos (a cor dos mármores vai mudando conforme a hora do dia), eu quase não acreditava no que estava a ver. Naquele tempo ainda era possível entrar dentro do Parténon. Agora, já não é, senão desfaz-se, com os milhões de turistas. Resistiu a tudo mas não a tanto. E Delfos também é fascinante.

 

Como é que sentiu o diálogo entre os textos literários, a arquitectura e os objectos artísticos?

São inseparáveis. No fundo, trata-se sempre do mesmo sentido do Belo.

 

Quando diz isso, não podemos deixar de pensar em A Origem da Tragédia, de Nietzsche, um filósofo filólogo, e da sua concepção do apolíneo e do dionisíaco.

A Origem da Tragédia é, como alguém disse, um erro genial. O livro do professor Dodds, Os Gregos e o Irracional, abarca também essa questão da diferença entre o dionisíaco e o apolíneo e mostra que ela é muito mais complicada.

 

Mas o que é um facto é que essa oposição funda duas categorias estéticas.

A religião dionisíaca é muito complexa, faz apelo a forças irracionais, sem dúvida, e ao mesmo tempo sai dela uma das mais espantosas criações da civilização grega que é teatro, isto é, as grandes celebrações atenienses em honra de Diónisos eram essas. Por todo o lado têm aparecido tabuinhas que têm a ver com a religião dionisíaca. Esse assunto está ainda muito confuso, tem que ver com a sobrevida no além, há algumas ligações com o orfismo que ainda não estão bem classificadas. Há muitas coisas que nos escapam. Mas que Apolo é o Deus da perfeição, não restam dúvidas.

 

A professora também escreveu muito sobre poetas contemporâneos.

A cultura grega nunca foi para mim algo enterrado historicamente. E por isso trabalhei bastante sobre a sua presença na literatura portuguesa contemporânea, verificando que os melhores poetas contemporâneos têm uma predilecção marcada, um sentido profundo do helenismo: Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, Miguel Torga, etc.

 

Nos últimos anos, sobretudo graças a um conjunto de universitários que têm feito óptimas traduções, o trabalho dos classicistas tornou-se muito mais visível publicamente.

Há de facto um grupo muito bom, tanto aqui em Coimbra como em Lisboa, o que significa que nem tudo está perdido. A verdade é que já há muitos anos começámos a fazer traduções tanto do Grego como do Latim e elas têm tido êxito.

 

As reformas do ensino secundário não têm sido muito favoráveis ao estudo do Latim e do Grego.

Pois não, e sempre que se tem proporcionado, tenho escrito sobre isso. Mas essas reformas também não têm sido muito saudáveis para o Português e para a Matemática. Há matérias que são fundamentais e têm que se aprender pelos caminhos próprios.

 

Neste momento há uma série de constrangimentos que tornam praticamente impossível estudar Latim e Grego no secundário.

Pois, e isso sem dúvida que atrofia os estudos clássicos na universidade. Pelo menos o latim devia ter outra presença no ensino secundário. É aceitável que um aluno vá para Direito sem saber Latim, se o Direito romano está na base do Direito europeu?

 

A cultura grega e latina servem-lhe de mediação para observar o mundo contemporâneo?

Vejo sempre tudo através dessa mediação e vejo que há fenómenos que se repetem, características positivas e negativas dos tempos actuais que também existiram na Antiguidade. Uma coisa por exemplo é a República romana, a chamada Pax Romana, outra coisa é a decadência romana... e verificamos que algo se está a repetir, ao contrário da ideia dos historiadores e que a História não se repete: por exemplo, a perda dos padrões éticos, como no final do Império Romano.

 

quinta-feira, março 12, 2009

Guerra na Antiguidade IV

Com a coordenação de António Ramos dos Santos e José Varandas, o Centro de História da Universidade de Lisboa promove a quarta edição do Colóquio “A Guerra na Antiguidade”, inserido nas linhas de investigação Segurança & Defesa e Mundo Antigo & Memória Global daquele centro. Segundo informação da mesma instituição, “O Colóquio, que se tornou já uma referência no panorama historiográfico nacional, ao propor novos horizontes teóricos, novos problemas metodológicos e novas linhas reflexivas para a análise e compreensão do fenómeno militar no Mundo Antigo, visa uma vez mais o estudo da guerra numa larga diacronia, que parte das civilizações pré-clássicas (Ugarit, Elam, Assíria, Egipto) até chegar ao mundo clássico (Grécia e Roma), sem esquecer os seus inimigos, a Ocidente e a Oriente, finalizando com uma incursão pela Antiguidade Tardia, e conta com a participação de especialistas de várias Universidades (FLUL, FLUC, FCSH-UNL, Univ. Aberta) e outras tantas unidades de investigação científica (CHUL, UNIARQ, CHAM e CECHUC).”
Quinta-feira, 26 de Março de 2009, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; a entrada é livre, mas para o certificado de presença é necessária inscrição e o pagamento de 5€.

Programa das conferências
Semânticas de guerra na literatura de Ugarit, por José Augusto Ramos
O conflito entre Teumman e Assurbanípal: um episódio nas relações entre o Elam e a Assíria, por Francisco Caramelo
Fidelidade e hierarquia militares sob os Sargónidas, por António Ramos dos Santos
A fortaleza de Buhen: um ponto estratégico no Egipto do Império Médio, por José das Candeias Sales
Uma «guerra de libertação» no Egipto: a expulsão dos Hicsos e o início do Império Novo, por Luís Manuel de Araújo
O cenário de guerra na tragédia euripidiana, por Nuno Simões Rodrigues
Entre a batalha de Salamina e a Guerra do Peloponeso: as bases do império ateniense, por Delfim Ferreira Leão
A geografia das Guerras Lusitanas, por Amílcar Guerra
Dos inimigos de Roma: Boadiceia [sic] e as campanhas de Gaio Suetónio Paulino (59-61 d.C.), por José Varandas
«Ave Cæsar, morituri te salutant!»: As armas dos gladiadores, por Miguel Sanches de Baêna
Comitates e limitanei.
A defesa da fronteira no final do Império Romano, por Pedro Gomes Barbosa

segunda-feira, março 02, 2009

Escavações no centro de Gloucester

Vão começar no fim do mês trabalhos arqueológicos no centro de Gloucester, na Inglaterra, com o objectivo de descobrir a antiga muralha romana da cidade, diz a BBC.

sábado, fevereiro 28, 2009

Tácito e Racine em vez de Andersen e Perrault

Marguerite Yourcenar nasceu em Bruxelas a 8 de Junho de 1903 e foi a primeira mulher a ser eleita para a Academia Francesa, em 1980. A propósito da reedição em língua espanhola do livro Con los Ojos Abiertos: conversaciones con Matthieu Galey, Javier Aparicio Maydeu publica hoje no El País este artigo, de onde se extraem os seguintes passos:
Filtrado por el largo alambique de la cultura clásica aprendida de niña (Tácito y Racine sustituyeron en su infancia a los cuentos de Andersen y Perrault), de sus provechosas lecturas de Proust buscando también las reminiscencias del tiempo perdido y de su querencia por la reescritura de un tiempo pretérito, su interés por la Historia emanada del individuo destila esas apócrifas Memorias de Adriano (1951) que constituyen su obra maestra, modélico relato de la evocación que adopta formas de novela histórica o de epístola moralista, en la que se exhibe espléndida su prosa aristocrática y austera de fraseo aseverativo, escasos adjetivos ("juegan muy malas pasadas"), impecable sintaxis de ecos greco-latinos, discurso autoritario, suntuario, y sutil voluntad epigramática, una prosa argumentativa y pontificadora que transcurre por la página como las espesas aguas de un río. La magia de la palabra evocadora resucita a Adriano, cuya voz solemne fluye en un monólogo fecundo que reflexiona en torno al poder, al amor homosexual o a la memoria personal de las edades del hombre y del paso irremediable del tiempo ("Ciertas porciones de mi vida se asemejan ya a las salas desmanteladas de un palacio demasiado vasto...", "Me esfuerzo por recobrar un instante"), que concluye con la muerte, a la que debemos afrontar sin temor, como reza la frase final, aforística y grave como tantas de las suyas, "Tratemos de entrar en la muerte con los ojos abiertos". Al mismo tiempo que fijaba los cánones de la novela histórica actual y cantaba al hombre solo y dueño de su destino, Yourcenar fue capaz de afianzar para siempre los dominios del soliloquio restaurador del pasado en la narrativa contemporánea, que luego se han visto enriquecidos con En el nombre de la tierra, de Vergílio Ferreira; El libro de familia, de Patrick Modiano; Se está haciendo cada vez más tarde, de Tabucchi, o Elegía, de Philip Roth.
Su pasión por la historia la llevó a reconstruir el Renacimiento en Opus nigrum (1968) a través de la personalidad de Zenón, el alquimista imaginario que Yourcenar se inventa confiriéndole entidad de personaje histórico merced a su infalible empatía lingüística y a una ambientación de época que cuida cada detalle con precisión de arqueólogo. Como sucede en Memorias de Adriano, tampoco aquí importa tanto la intriga cuanto la recreación de una época, ni la acción novelesca adquiere en su narrativa siempre introspectiva el valor que sí tienen en cambio el pensamiento y la conciencia. Yourcenar estima el monólogo porque edifica su obra en torno a la voz, de modo que la palabra sirva entonces al propósito de poner en escena la conciencia de sus personajes, a quienes literalmente les da la palabra, les deja hablar. Su trilogía inacabada El laberinto del mundoRecordatorios (1973), Archivos del norte (1977) y ¿Qué? La eternidad (1988) — va en busca de sus orígenes familiares sin pretensiones autobiográficas ("el público que busca confidencias personales en el libro de un escritor es que no sabe leer"), y sus personajes de ficción son entonces sus antepasados de verdad, pero también a ellos les da la palabra, y habla apenas de sí misma acabada de llegar al mundo, al final de Archivos del norte, con la distancia de la tercera persona pero con la inmensa ternura del recuerdo infantil, "Es demasiado pronto para hablar de ella. Dejémosla dormir sobre las rodillas de Madame Azélie; dejemos que sus ojos nuevos sigan el vuelo de un pájaro". Proust y Tolstói están muy cerca de estas evocaciones familiares nacidas por igual de los archivos y de la invención de la memoria, dispuestas, entre la crónica genealógica y el gran fresco novelesco, "en la inmensidad del tiempo".

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

A idade das palavras

Investigadores da Universidade de Reading, perto de Londres, concluíram quais são as palavras mais antigas da língua inglesa e de outras línguas indo-europeias. Essas palavras, que têm cerca de 40 mil anos, são as correspondentes a “eu”, “nós”, “dois”, e “três”.

A BBC informa que foi através que um modelo computorizado que aqueles investigadores puderam levar a cabo a sua pesquisa, acreditando-se agora que se pode concluir quais as palavras irão desaparecer (por exemplo, “squeeze”, “guts”, “stick”, “bad”) e que se pode datar a utilização de outras: “At the root of the effort is a lexicon of 200 words that is not specific to culture or technology, and is thereby likely to represent concepts that have not changed across nations or millennia”, diz a BBC, que cita Mark Pagel, biólogo evolucionista da mesma universidade: “We have lists of words that linguists have produced for us that tell us if two words in related languages actually derive from a common ancestral word. (…) We have descriptions of the ways we think words change and their ability to change into other words, and those descriptions can be turned into a mathematical language”.

O trabalho, fruto de cooperação entre linguistas, biólogos, e outros especialistas, partiu de relações de palavras “in order to develop estimates of how long ago a given ancestral word diverged in two different languages. They have integrated that into an algorithm that will produce a list of words relevant to a given date. ‘You type in a date in the past or in the future and it will give you a list of words that would have changed going back in time or will change going into the future,’ Professor Pagel told BBC News. ‘From that list you can derive a phrasebook of words you could use if you tried to show up and talk to, for example, William the Conqueror. There's lots of words he wouldn't have understood — like ‘big’, ‘bird’, ‘heavy’, and 'here'. The words he would've used would've derived from a different common ancestral word to the English words that we're using today.’”

Os resultados da investigação permitem ainda saber a frequência com que uma palavra é usada e a velocidade com que varia através do tempo. Daqui decorre que, como já se previa, as palavras mais comuns são as mais antigas: “For example, the words ‘I’ and ‘who’ are among the oldest, along with the numbers ‘two’, ‘three’, and ‘five’. The number ‘one’ is only slightly younger. The number ‘four’ experienced a linguistic evolutionary leap that makes it significantly younger in English and different from other Indo-European languages.”

Em contrapartida, as palavras que têm mais variação são as que poderão desaparecer mais depressa, sendo substituídas por outras: “For example, ‘dirty’ is a very rapidly changing word; there are 46 different ways of saying it in the Indo-European languages, all words that are unrelated to each other. As a result, it is likely to die out soon, along with ‘stick’ and ‘guts’. Verbs also tend to change quite quickly, so ‘push’, ‘turn’, ‘wipe’ and ‘stab’ appear to be heading for the lexicographer's chopping block.”

O Professor Pagel afirmou também que algumas destas palavras devem ter pelo menos 40 mil anos: “The sound used to make those words would have been used by all speakers of the Indo-European languages throughout history. (…) Here’s a sound that has been connected to a meaning — and it's a mostly arbitrary connection — yet that sound has persisted for those tens of thousands of years.” A teoria assim exposta confirma a crença, desde Saussure, de que o signo linguístico é arbitrário: “The work casts an interesting light on the connection between concepts and language in the human brain, and provides an interesting insight into the evolution of a dynamic set of words.”

O trabalho desenvolvido por esta equipa de investigadores pode ser experimentado neste endereço.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

A Eneida na ficção científica moderna

Excerto do texto de Charlotte Higgins no blogue On Culture, do Guardian:

Battlestar Galactica revealed as the new Virgil's Aeneid

Adama is Aeneas, fleeing Troy to find the prophesied new home for his people...

(...) Now, am I the only person who regards the sweep of the story of the sci-fi series Battlestar Galactica as a kind of re-reading of Virgil's Aeneid? I am talking, of course, of the great Roman epic poem that recounts the flight of Aeneas and his followers from their conquered city of Troy to Italy, where, it is prophesied, their descendants will found Rome.
(...) A leader leaves the destroyed wreck of his former civilisation (Troy/Caprica), which has been blasted into smithereens by an invading force (Greeks/Cylons). You might even see Gaius Baltar as a sort of Trojan horse. That leader is accompanied by his son: it's Adama as Aeneas, and Apollo as Ascanius, if you follow me.
On they forge, guided by prophecies that the leader is initially unwilling to accept, towards their fated new home (Adama, like Aeneas in Aeneid book two, needs some persuasion that the various portents pointing the way are of any value.)
Need I remind you that we're constantly getting heavy hints as to the classical origins of our story via the theology of the humans of Battlestar Galactica, who worship the Olympian pantheon of Zeus, Hera et al?
Tentatively, I'd suggest Starbuck's return to Caprica to collect the arrow of Apollo as akin to the visit to the Underworld in Aeneid book six. The arrow of Apollo as the golden bough?
The unsuccessful stay in New Caprica, of course, recalls the settlement the wandering Trojans found on Crete in book three, in the mistaken assumption that this is the fated new land. (And it is also reminiscent of the section in book five where the comrades build a settlement on Sicily for those who are weary of the journey).
One might argue that Helena Cain is a kind of reversed Dido (Aeneid book four); the eventually destroyed Pegasus might be seen as her funeral pyre.
I could go on. I have my own ideas about how the second part of the final series is going to pan out (please don't ruin it for me). As long as our friends remember "parcere subiectis et debellare superbos".

domingo, fevereiro 22, 2009

A autoridade dos mitos

A tradução espanhola do livro de George Steiner Antígonas (que em Portugal está publicado pela Relógio d’Água) mereceu de Carlos García Gual um artigo no El País:

La inquebrantable autoridad de los mitos griegos

Ensayo. El subtítulo de la edición de bolsillo: La travesía de un mito universal por la historia de Occidente me parece menos adecuado que el de la versión anterior de 1987: Una poética y una filosofía de la lectura. Porque Antígona no es un mito universal, sino, más bien, un episodio trágico de una saga mítica griega (la de la familia de Edipo), invención dramática de Sófocles, integrado en un mito de resonancia universal. Pero, en fin, no seamos puntillosos y felicitémonos de la reedición de este espléndido ensayo, ejemplar y casi clásico, que examina y sopesa los ecos del drama sofocleo en la literatura y la filosofía occidental "en el contexto de una poética de la lectura". No es, como Steiner, advierte, un mero recorrido de las numerosas Antígonas posteriores — desde la de Eurípides y Accio a las de Anouilh y Brecht, y algunas más —, sino algo mucho más interesante, un estudio hermenéutico y de literatura comparada de largo alcance intelectual, con una cuestión trascendente como telón de fondo: "¿A qué se debe la inquebrantable autoridad que los mitos griegos ejercen sobre la imaginación de Occidente? ¿Por qué un puñado de mitos griegos, el de Antígona entre ellos, reaparece en el arte del siglo XX en un sentido casi obsesivo? ¿Por qué Edipo, Prometeo, Orestes, Narciso, no quedan relegados a la arqueología?".

Desde el 430 antes de Cristo en que Sófocles representó su Antígona en el teatro de Dioniso, el enfrentamiento entre la hija de Edipo y el tirano Creonte se ha visto multiplicado en dramas y óperas, y, con no menor impacto, en discusiones filosóficas memorables. Hegel, Goethe, Kierkegaard y Hölderlin merecen un lugar de honor que aquí se les da en la larga lista de intérpretes del duelo entre la princesa que defiende el honor de la familia y el rey que afirma la ley de la ciudad contra el príncipe que intentó destruirla. Ardua es la polémica sobre quién es el verdadero héroe trágico: la joven que trata de enterrar al hermano amado, o el rey implacable en hacer cumplir a toda costa su decreto patriótico. Lo trágico, según Hegel, es que los dos tienen razón, y, como uno y otra se empecinan en sus tesis, el agón desemboca en la mutua destrucción. En el primer capítulo Steiner se ocupa a fondo de esos filósofos y poetas. En los siguientes resume la larga impronta de la obra en la literatura universal de las numerosas Antígonas de los últimos siglos, y analiza los dilemas y motivos que dan a su argumento su perenne vivacidad, su impresionante fuerza teatral. En Antígona resuenan, subraya Steiner, como en ninguna otra obra, las constantes eternas de conflicto de la condición humana. "Son cinco: el enfrentamiento entre hombres y mujeres; entre la senectud y la juventud; entre la sociedad y el individuo; entre los vivos y los muertos; entre los hombres y Dios (o los dioses)". En los diálogos y los cantos del coro emergen con inolvidable poesía.

Los mitos griegos — a diferencia de los dogmas — invitan a renovadas y múltiples reinterpretaciones, y se enriquecen con ellas. La tradición literaria recrea una y otra vez los míticos relatos, herencia común del imaginario europeo a la par que incesante desafío. El autor de Después de Babel [também publicado em Portugal pela Relógio d’Água] insiste de nuevo en los riesgos de sus traducciones, de sus puestas en escena, de sus imágenes poéticas, y subraya cómo leer a un clásico es siempre revivir sus palabras desde nuestro contexto histórico, entenderlo al socaire de otras lecturas. Leemos a un Sófocles impregnado de Anouilh y de Brecht y de Hegel. Más original que esta perspectiva es este fervor por releer a fondo, en una lectura lenta, poética y apasionada. "Retornar al mundo griego y a sus mitos significa dar a nuestros recursos de expresión algo del lustre y el filo cortante de los comienzos... Para nosotros tienen la autoridad de la aurora". El estilo sentencioso, entusiasta y brillante de G. Steiner -más en esta etapa que en sus últimos escritos- contagia al lector. Releo su texto unos veinte años después y me sigue atrapando su apasionante exégesis. (Hoy recomendaría empezar la lectura por el capítulo segundo, menos filosófico). Antígonas sigue siendo un magistral ensayo sobre el mito y la tragedia y su fecunda estela en la literatura y el pensamiento occidental.

Antígonas. La travesía de un mito universal por la historia de Occidente
George Steiner
Traducción de Alberto L. Bixio
Gedisa. Barcelona, 2009
372 páginas. 18,50 euros

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

César, Virgílio, Joviano, António e o mosaico mais belo do império

Notícia do PÚBLICO.

César, Virgílio, Joviano, António e o mosaico mais belo do império

16.02.2009

Um mosaico romano de características únicas foi encontrado em Alter do Chão. É do século IV e representa o último canto da Eneida. Em ano eleitoral, a obra de Virgílio poderá fazer pelo presidente
da câmara, Joviano Vitorino, o que, há dois mil anos, fez pelo imperador César Augusto. Vai poder ser visto a partir de 21 de Maio. Por Paulo Moura (texto) e João Henriques (fotos)

Caio Júlio César Otaviano Augusto, em Roma, à semelhança de Joviano Vitorino, em Alter do Chão, precisava de consolidar o seu poder. A república tinha-se transformado em império, em 23 a.C., e, para o manter unido e submisso, era importante criar uma mitologia, uma epopeia e uma crença na natureza divina do poder imperial.
César chamou um poeta com provas dadas, Virgílio. Ou melhor: pediu a um amigo, também seu conselheiro e agente diplomático, muito rico e que gostava de apoiar as artes, um mecenas, que falasse com Virgílio. O mecenas que, não por acaso, se chamava Mecenas, pagou ao poeta para escrever uma obra melhor do que a Ilíada e a Odisseia juntas. No ano 19 a.C., o mesmo em que morreu, Virgílio compôs então a Eneida, um poema épico em 12 cantos que começa, mil anos depois, onde a Ilíada termina - a queda da cidade de Tróia.
Os primeiros seis cantos da Eneida, aliás, emulam a Odisseia, em termos de enredo e também na forma, enquanto a primeira parte da obra imita a Ilíada. Tudo junto, garantia Virgílio, superava a obra de Homero. Mas não a ignorava. Através de um sistema de referências a que os literatos chamam intertextualidade, alimentava-se dela. São comuns algumas personagens, bem como locais e eventos, para que ao leitor que conheça a Ilíada e a Odisseia esteja acessível uma fruição superior da própria Eneida.
Ao contrário do que se passa na Odisseia, protagonizada por um grego (Ulisses), o herói da obra de Virgílio é Eneias, um troiano que, a pedido da sua ilustre mãe, foge, após a destruição da cidade pelos gregos, com o objectivo de erguer uma nova cidade, uma nova Tróia, que será Roma. Eneias era um rapaz de boas famílias: o pai era Anquises, um príncipe troiano, mas a mãe era nada menos do que a deusa Vénus, que tivera com o mortal Anquises uma aventura extraconjugal. Também estava muito bem relacionado: o seu escudo foi construído por Vulcano, marido de Vénus e deus do fogo (à semelhança do que acontece com o escudo de Aquiles, na Ilíada), frequentava a casa de Plutão, o guardião dos Infernos, e aconselhava-se regularmente com Júpiter, o deus dos deuses.
Após muitas peripécias, guiado por um oráculo, Eneias chega à Itália. Aí, tem de combater o rei dos rútulos, Turno, a quem tinha sido prometida a mão de Lavínia, filha de outro líder local, Latino, rei dos latinos. Mas um oráculo aconselhara Latino a aceitar como genro um guerreiro estrangeiro. Eneias conta então com a ajuda de Latino e, protegido com o escudo forjado por Vulcano (onde estão gravados todos os acontecimentos da futura História de Roma), e aconselhado por um génio do rio Tibre, vence, numa luta corpo a corpo, o rei Turno. Tombado no chão, este implora pela sua vida, mas Eneias, após um momento de hesitação, trespassa-o com a espada. Desposa Lavínia, e o seu filho Ascânio, neto de Anquises e Vénus, será o avô dos futuros reis de Roma, que assim vêem garantida uma linhagem divina e uma História mítica, ligada aos gregos e aos povos da Itália. Virgílio cumpriu a sua missão, o imperador César Augusto ficou satisfeito.
A Casa da Medusa
Jorge António encontrou primeiro a cabeça de uma estátua de mármore representando uma rapariga. O penteado, em longas tranças puxadas para trás e apanhadas em rabo de cavalo, denuncia a moda da sua época. Basta averiguar quando se usava aquele visual feminino, e saberemos a que período pertence a estátua. Foi isto que pensou Jorge António, que é natural de Faro e arqueólogo da Câmara Municipal de Alter do Chão.
Uma coisa era certa: a presença da escultura era sinal da existência de uma casa muito rica, uma verdadeira domus. Até agora, já tinha sido descoberta a base de uma outra estátua, de Apolo, perto de uma zona de balneários termais, daquela que terá sido uma importante cidade romana e está hoje soterrada sob a vila alentejana de Alter do Chão. A cidade chamava-se Abelterium e começou a ser escavada em 1954. A estação arqueológica desenvolveu-se na área entre o campo de futebol, uns terrenos pertencentes à coudelaria, e o pavilhão desportivo que viria a ser construído. Tornou-se perfeitamente visível a zona do hipocausto, onde o ar aquecido por uma fornalha de lenha circulava por baixo do chão, a do frigidário, onde corria água fria, a zona de massagens e a latrina comunitária. No decorrer das escavações, surgiria também a necrópole, onde, a julgar pelo luxo dos objectos depositados junto a cada corpo, estariam sepultados os elementos da elite da sociedade romana da época. Tudo levava a crer, portanto, estar-se na presença de uma grande cidade - uma civitas, e não um simples vicus (povoado).
Jorge António, 38 anos, trabalha há oito na Câmara de Alter do Chão. Concluíra a licenciatura em História e Arqueologia na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e estava desempregado. Enviou um currículo para a Câmara de Alter e conseguiu o lugar. Logo nesse ano de 2001, elaborou um projecto para a Estação Arqueológica de Ferragial d'El Rei, que só viria a ser aprovado em 2004. Foi nessa altura, com alguns apoios financeiros, que se iniciaram os trabalhos.
No seu Gabinete de Arqueologia, instalado em duas salas do edifício do Cineteatro de Alter do Chão, Jorge armazena, organiza e estuda os achados dos últimos anos, distribuídos por caixas rotuladas - "Fragmentos de estuque", "Elementos de adorno", "Cerâmica comum", "Moeda", "Vidro", "Aplicações para mobiliário", "Têxteis", "Lazer", "Iluminação doméstica"... Sobre uma mesa, o esqueleto quase completo de um homem, sepultado há cerca de 1500 anos. Tinha 1m e 62 cm de altura, entre 40 e 49 anos à data da morte, e era rico. É o que se sabe sobre ele.
Com estes elementos, e mais alguns fragmentos de estátuas, de frescos, de paredes, Jorge António ia imaginando a cidade que existiu naquele lugar, e que, a jugar pelos vestígios, nunca foi propriamente abandonada, até hoje. Terá havido uma continuidade de ocupação, desde as povoações pré-romanas, as visigóticas, árabes, cristãs, até ao castelo, construído em 1349 por D. Pedro, e à actual vila de Alter do Chão.
Mas foi há um ano e meio que fez a grande descoberta.
O mosaico
Perto do local onde encontrara a cabeça feminina, em mármore, viu surgir a figura de Eneias, composta em minúsculas tesselas de calcário colorido e outras de pasta vítrea, azuis, verdes e amarelas. Foi alargando a área exposta e trouxe à luz o imenso mosaico, de 53 metros quadrados, constituído por uma moldura geométrica e uma zona figurativa de inédito esplendor. Eneias, com o seu penacho característico, quebrado por ter sido atingido por uma lança. Dos dois lados do painel, frente a frente, guerreiros gregos e frígios, definidos pelos respectivos capacetes. Entre as duas hostes, um medalhão com a figura da Medusa. Ao centro do painel, prostrado aos pés de Eneias, o rei Turno, implorando pela sua vida. Em baixo, à direita, a figura de Vulcano, cuspindo fogo, e à esquerda a do génio do Tibre, de cujo jarro verte a água do rio, representada em tesselas de pasta vítrea azul e verde.
"A cena representa o último canto da Eneida", explica ao P2 Teresa Caetano, investigadora do Instituto de História da Arte da Universidade Nova de Lisboa e da Associação de Investigação e Estudo do Mosaico Antigo e da Associação Portuguesa para o Estudo e Conservação do Mosaico Antigo. "Turno está a pedir a Eneias que lhe salve a vida", diz a especialista, que já está a estudar o achado de Alter do Chão. "Há o deus Tibre, representado por um génio do rio, apoiado num vaso que deita água. Do outro lado está Vulcano, amigo da mãe de Eneias, que era Vénus, secando o rio, afrontando o génio do Tibre..."
Teresa Caetano nunca tinha visto um mosaico como este. Não há, no país, nem na península, nem talvez no mundo, mais nenhum desta qualidade e neste estado de conservação. O estudo, que vai durar, pelo menos, até ao final deste ano, ainda está no início. Mas já é possível tirar algumas conclusões: o mosaico é do século IV, do império romano tardio, e pertencia a uma casa muito rica. Naquela altura, como reacção ao cristianismo que alastrava, tornaram-se moda, entre os romanos não-cristãos, os mosaicos com motivos da Ilíada, Odisseia ou Eneida. Os homens ricos e influentes do mundo romano faziam questão de ostentar uma profunda cultura clássica, e uma ligação aos valores pagãos, que consideravam superiores aos do cristianismo. Era uma demonstração de status e poder.
Nada se sabe sobre o homem que mandou construir o mosaico de Abelterium, excepto que era muito rico e culto e que teria uma grande importância na cidade. O mosaico terá custado uma fortuna. Não foi feito, decerto, por um artista da região, porque não havia na península, que se saiba, uma escola com tal mestria. Mas sobre isto há várias teorias. Jorge António fala de artistas itinerantes que iam de casa em casa, com um catálogo de imagens. Teresa Caetano imagina uma espécie de "multinacional" da arte do mosaico, que teria "sucursais" em vários pontos do império. As próprias tesselas, que alguns historiadores pensavam serem feitas com materiais de cada local, parece afinal que eram produzidas numa mesma "fábrica", e transportadas de barco para as várias regiões. Os despojos de um navio, carregado de tesselas coloridas, naufragado ao largo das Berlengas, vieram confirmar esta teoria.
A maior parte dos mosaicos eram feitos por artesãos, que copiavam as imagens concebidas pelos "designers" da "multinacional", com ligeiras adaptações. Não terá sido o caso do painel de Alter do Chão. "A riqueza de pormenores, as sombras, a musculação, a própria técnica da perspectiva" denunciam a presença de um artista. Um verdadeiro pictor imaginarius, que terá vindo expressamente de Emerita Augusta (Mérida), capital da Lusitânia, ou mesmo de Roma, para produzir a obra na casa do magnata de Abelterium. Era um mestre, que se faria pagar a peso de ouro, mas terá desenhado o que o seu cliente pediu, como era normal na época. Mais ou menos pasta vítrea, para os detalhes dos olhos, a água ou o fogo, mais uma cena mitológica, mais uma personagem, tudo isto era decidido por artista e cliente, numa discussão erudita de quem dominava os clássicos.
Jorge António não duvida de que o proprietário da sua Casa da Medusa, como baptizou a domus do mosaico, era um homem culto. Entre as várias divisões que descobriu, conta-se um escritório (tablinum), o que mostra tratar-se de um intelectual. Desta divisão sai um corredor que liga aos quartos, ao peristilo - o jardim interior - e ao triclinium, ou sala de jantar, coberto pelo mosaico da Eneida.
"A casa deveria ter pelo menos o dobro do tamanho do que está à vista e, provavelmente, um segundo andar", explica Jorge António. "Era aqui que o dono recebia os seus convidados para jantar", continua, caminhando sobre o mosaico. "Ao centro ficava a mesa e aqui, à volta, os sofás, onde as pessoas se deitavam, como é descrito no Banquete de Trimalquião, de Satiricon", prossegue o arqueólogo municipal, que considera "urgente" continuar as escavações, e preservar os tesouros encontrados, não obstante a descoberta do mosaico ter ocorrido há um ano e meio e só agora ter sido divulgada. "Era um homem muito importante. Um aristocrata, um sacerdote. Talvez um político."
A epopeia de Joviano
Está a chover. A água infiltra-se nos interstícios das tesselas, fazendo-as saltar dos seus lugares. Joviano Vitorino, 50 anos, lembra-se de vir para aqui brincar, quando era miúdo. A escola que frequentava, na aldeia da Cunheira, tinha 80 alunos. Hoje, não tem nenhum, e fechou. "Lembro-me de vir a Alter, de fatinho, fazer o exame da 4ª classe, em 1968. Brincávamos sobre as ruínas, levávamos pedras para casa." Alter do Chão tinha na altura dez mil habitantes. Hoje, tem quatro mil. "O poder central tem de começar a olhar para o interior do país de forma diferente", diz Joviano Vitorino, que é hoje presidente da Câmara de Alter do Chão, eleito pelo PSD. "A nossa riqueza arqueológica tem um potencial enorme, e a descoberta deste mosaico veio trazer outra dinâmica ao nosso projecto."
O projecto, a epopeia de Joviano Vitorino, é classificar Abelterium como Monumento Nacional, criar o Centro Interpretativo da Estação Arqueológica, no 1º andar do Cineteatro, o Clube do Património, para trazer estudantes à estação, um núcleo museológico, o Corredor do Tempo, para as crianças, e uma cobertura especial para o mosaico da Casa da Medusa. Parte deste equipamento vai ser inaugurado no próximo dia 21 de Maio. Haverá também merchandizing - t-shirts, bonés, posters com réplicas do mosaico - e ainda uma piscina descoberta, um pavilhão desportivo e um estádio.
"Tudo isto atrairá turistas e criará empregos na região", explica o autarca, que espera obter fundos governamentais para o projecto. "Precisamos de milhares de euros, e vamos passar a bola da responsabilidade."
Um grupo de dissidentes do PSD tem sido muito crítico das acções de Joviano, e ameaçou desafiá-lo, nas eleições autárquicas deste ano, talvez apoiando o candidato do PS. Mas Joviano tem agora um trunfo que crê ser imbatível: o mosaico. O timing é perfeito.
"Vai ser inaugurada a IC13, que liga Portalegre a Alcochete. Ficaremos a uma hora e meia de Lisboa", diz Joviano Vitorino. Não há razão para que o mosaico seja levado para um museu da capital. "Não deixo que ele saia. Isto tem uma importância arqueológica enorme", diz o autarca, que entretanto se tornou especialista em cultura clássica. "Só por cima do meu cadáver."

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

“São precisos professores que gostem de ler”

Carlos Reis, coordenador da equipa que apresentou os novos programas de Português para o ensino básico (actualmente em discussão pública) deu uma entrevista ao jornal Público. Realçam-se algumas das suas afirmações:

Não se pode, naturalmente, generalizar, mas há muitos professores — não só, mas principalmente os que saíram dos institutos politécnicos — que foram formados à luz de uma concepção... eu diria... muito desenvolta, muito expedita do que é falar e escrever em português.
Aquela coisa de “se o menino erra tem de se valorizar o erro, a expressividade...”. Sou completamente contra isso. Um erro é um erro, em Português como em Matemática. Se no discurso corrente, quotidiano, o sujeito não concorda com o predicado, isso é um erro.

Actualmente, os poucos textos literários apresentados aos alunos são utilizados como textos ilustrativos de coisas que têm pouco que ver com a literatura. Usar um soneto de Camões para explicar o que é o discurso argumentativo, por exemplo, é matar o soneto de Camões. Ele tem de ser percebido pelos alunos como uma grande peça lírica, que representa e modeliza uma emoção, uma visão do mundo, um sentimento.

Para termos alunos que gostem de ler são precisos professores que gostem de ler, que entendam a literatura como um domínio de representação cultural com uma grande dignidade e com uma enorme capacidade de nos enriquecer do ponto de vista humano. Claro que isto ultrapassa, em muito, a esfera de actuação de quem prepara programas de Português, e está intimamente relacionado com a actual crise das Humanidades. (...) Nem toda a gente tem de ler Platão e de traduzir latim. Mas está à vista que a hipervalorização, às vezes até um bocadinho provinciana, das tecnologias traz consigo lacunas consideráveis na forma de olharmos para o outro, de pensarmos no que é justo ou injusto, no que é solidário e não o é, no que é bonito e no que é feio — e que encontramos na Literatura, na História, na Filosofia.... A recuperação do atraso científico e tecnológico não deve ser feita à custa da desqualificação — política, até — de outras componentes da nossa cultura.

A entrevista pode ser lida na íntegra aqui.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

O Oráculo de Delos


A Grécia temeu Apolo, mesmo antes de ele nascer. Sentindo já as dores do parto, Leto vagueava pelas terras e as ilhas do Egeu: era a mais delicada das deusas e possuía já todas as qualidades que o filho viria violentamente a ignorar. Pediu abrigo, mas as terras e as ilhas já conheciam Apolo antes de ele nascer e tremiam à ideia de o verem pisar o seu solo. Recusaram, e o deus sentiu a dor e a dificuldade de vir ao mundo, como os seres humanos. Por fim, Leto dirigiu-se a Delos, a ilha mais pequena e mais obscura de todas as ilhas do Egeu. Ofereceu-lhe um templo. Delos também receava. Receava que o jovem deus a desprezasse e, calcando-a com os pés, a fizesse desaparecer nas águas do mar: se assim fosse, as ondas submergi-la-iam, os polvos fariam os seus covis por cima dela, as focas habitariam na sua superfície deserta. Leto jurou: "Aqui, haverá sempre o perfumado altar de Febo e o seu santuário, e ele honrar-te-á mais do que a qualquer outra terra". Só então Delos aceitou receber a mãe e o filho.

Pietro Citati

terça-feira, janeiro 27, 2009

Platão, República, II, 370b-c


Sara Saudková

οὐ γὰρ οἶμαι ἐθέλει τὸ πραττόμενον τὴν τοῦ πράττοντος σχολὴν περιμένειν, ἀλλ᾽ ἀνάγκη τὸν πράττοντα τῷ πραττομένῳ [370ξ] ἐπακολουθεῖν μὴ ἐν παρέργου μέρει.

É que, creio eu, a obra não espera pelo lazer do obreiro, mas a força é que o obreiro acompanhe o seu trabalho, sem ser à maneira de um passatempo.

(trad. Rocha Pereira)

domingo, janeiro 25, 2009

Pena é que saiba latim

«A trigueirinha estudou a sua lição, e o Rei ajudou-lhe a pronunciar os ditongos. Sua Majestade sabia regularmente a língua francesa e espanhola. A italiana ensinou-lha, vinte anos depois, a actriz Petronilla, a quem deu presentes que carregaram trinta cavalgaduras quando a cantora se fez na volta de Espanha, diz o Cavalheiro de Oliveira. D. António Caetano de Sousa, na História Genealógica da Casa Real, tom. VIII, pág. 4, diz que o Rei sabia também latim com perfeita inteligência. De um sujeito que lia Horácio e Cícero, dizia Bocage: "Pena é que saiba latim, pois perdeu-se um parvo grande!" D. João V, ainda com latim, não era parvo pequeno nem perdido.»


Camilo Castelo Branco, A Caveira da Mártir, Obras Completas, Vol. VII, Lello, Porto, 1987, p. 1042

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Honoris Causa

Maria Helena da Rocha Pereira, Professora Catedrática Jubilada da Universidade de Coimbra, recebe hoje as insígnias honoris causa da Universidade de Lisboa. O Professor Raul Rosado Fernandes é o seu padrinho. A cerimónia decorre na Aula Magna da Reitoria da UL às 15h.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

O Fulgor da Grécia

O Prof. Doutor José Pedro Serra, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é o responsável pelas conferências que realizarão todas as quartas-feiras de Fevereiro às 18h30, na sala 2 da Culturgest (entrada livre). O Fulgor da Grécia: o olhar, a palavra, o gesto tem quatro sessões: "Homero ou o canto da vida heróica" (dia 4), "No espelho da tragédia" (dia 11), "Dioniso: Sol negro entre os olímpicos" (dia 18), "Ao tear do tempo: Atenas e Jerusalém" (dia 25).

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Monumento funerário do século VI d.C. em Mértola (Complemento)

«Foi descoberto, em Mértola, um mausoléu do século VI d.C. "único no Ocidente", que terá servido para sepultar "pessoas importantes" de origem grega. Esta descoberta arqueológica testemunha a presença de orientais em Mértola antes da islamização. Foi encontrado durante as obras de remodelação do Eixo Comercial de Mértola, na Rua Afonso Costa, junto à GNR.
Trata-se de "um mausoléu fantástico, absolutamente fora de série" e "o único edifício mortuário do género achado em todo o Ocidente do Mediterrâneo, onde, até agora, não há nenhum parecido", afirma Cláudio Torres.»


Continuação aqui >>>>

domingo, janeiro 04, 2009

Monumento funerário do século VI d.C. em Mértola

A notícia já tem algumas semanas, mas antes tarde que nunca. Uma importantíssima descoberta arquológica em Mértola: um monumento funerário do século VI d.C. Notícia áudio e texto na TSF.

Puro Séneca e Platão


Quem se não calou foi António de Cavide. O Rei leu a carta do ouvidor, espremeu em contrafeito riso o fel do despeito, mascou umas palavras regougadas, e, atirando a carta com desprezo ao manteeiro, disse afinal:
- Foi educada pelo padre Luís da Silveira...
- Nunca se disse tão conceituosa frase, meu senhor! - exclamou o ministro batendo as palmas com o estúpido entusiasmo da lisonja. E repetiu: - Foi educada pelo padre Luís da Silveira! Admirável, e digno de Juvenal, de Marcial, e... de Vossa Majestade!
- E que monta ser rei quando se é frágil como qualquer homem! - disse D. João IV com direito aos louvores do valido meditabundo.
- Estou pensando, real senhor!... - disse o ministro. - Vossa Majestade nestas poucas expressões compendiou um livro: E que monta ser rei quando se é frágil como qualquer homem!? Puro Séneca e Platão!...


Camilo Castelo Branco, A filha do regicida, Obras Completas, Vol. VII, Lello & Irmão, Porto, 1987, p. 887

sábado, janeiro 03, 2009

Para falar menos e melhor

O programa Today é um dos mais conhecidos e aclamados da BBC Radio 4. A seguir ao natal, esteve em estúdio o padre que traduz os textos da Igreja Católica para latim (tarefa que fez já sob diferentes papas, pois que a cumpre há 40 anos). Reginald Foster afirmou que se o papa usasse o latim nos seus discursos falava menos e com mais rigor, sem subterfúgios, pois a língua latina não permite a vacuidade e os devaneios do politiquês (para ouvir aqui).

Ao ouvir o Padre Foster (que já tinha sido notícia na BBC por causa da sua preocupação com o desaparecimento do latim) a falar, recordei este passo de A Educação Sentimental, de Gustave Flaubert, quando Frédéric, logo a seguir à proclamação da República em 1848, se encontra a assistir a uma reunião do clube “dos inteligentes” (‘clube’ neste contexto significa ‘partido político’):

— Michel-Evariste-Népomucène Vicent, ex-professor, exprime o voto no sentido de a democracia europeia adoptar a unidade de linguagem. Poderíamos servir-nos de uma língua morta, como por exemplo o latim aperfeiçoado.
— Não! Latim, não! — exclamou o arquitecto.
— Porquê? — replicou um professor.
E os dois cavalheiros envolveram-se numa discussão, a que todos se associaram, cada um lançando a sua frase para deslumbrar, e que não tardou a tornar-se tão fastidiosa que muitos se retiraram.

Usei a tradução de João Costa (Lisboa: Relógio d'Água, 2008), 245.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Descoberto maior conjunto de moedas de ouro do período Bizantino

"Arqueólogos britânicos descobriram 264 moedas de ouro com 1300 anos, nas antigas muralhas de Jerusalém, debaixo de um parque de estacionamento, revelaram hoje as Autoridades Israelitas", diz a Reuters, citada pelo Público.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

O Império Bizantino

Diz-se que o Império Bizantino foi constituído quando a cidade de Constantinopla, a Nova Roma, foi fundada em 324 d. C., e que terá terminado quando a mesma foi tomada pelos turcos otomanos em 1453.
O império Bizantino tem portanto uma duração de treze séculos e divide-se em pelo menos três grandes períodos: Inicial, Médio e Tardio.
O Período Inicial prolongou-se até ao século VII, ou seja, até à ascensão do Islão e à instalação definitiva dos árabes, ao longo da costa sul e este do Mediterrâneo, durante o reinado de Heraclio, o Grande. De acordo com Miguel Pselo (escritor bizantino), Heraclio encontra-se pela primeira com Mohammed, chefe tribal dos sarracenos, no regresso da sua bem sucedida expedição contra os persas. Mohammed viera de Yathrib e pede-lhe autorização para fundar uma colónia, ao que Heraclio acede, mais tarde o Mohammed organizará um primeiro exército, fará uma primeira incursão à Síria e depois começará a devastar território romano.
O Período Médio dura até à ocupação da Ásia Menor pelos turcos, nos anos de 1070 ou, menos provavelmente, até à tomada de Constantinopla pelos cruzados, em 1204.
O Período Tardio é o tempo que medeia a partir de um destes términos até 1453.
Na realidade e como é evidente, como afirma Cyril Mango, “o império Bizantino nunca existiu. Existiu sim um Estado Romano que tinha por centro Constantinopla. Os seus habitantes apelidavam-se Romaioi, ou simplesmente cristãos”. Um homem era referido como byzantios apenas se fosse oriundo de Constantinopla. Os europeus ocidentais, os bizantinos eram conhecidos como Graeci, uma vez que romanos assumia uma conotação completamente diferente.
O termo Byzantinus para referir o Império e os seus habitantes só começa a ser utilizado no Renascimento.
O Período Inicial é, de longe, o mais importante, uma vez que é aquele que pertence à Antiguidade e que geograficamente engloba bacia mediterrânica. O Império Romano ainda se estendia de Gibraltar ao Eufrates, enfrentando o seu inimigo de sempre, a Pérsia sassânida.
Também a nível cultural o período inicial se destaca dos restantes. É nesta época que o cristianismo é integrado na tradição greco-romana, que se define o dogma cristão, estabelecendo as estruturas da vida cristã e que se procedeu à criação de uma literatura e arte cristãs.
É difícil avaliar a ruptura ocorrida no séc. VII, a começar pela invasão persa no início do século e a culminar na expansão árabe, cerca de trinta anos mais tarde. Uma série de infortúnios veio privar o império das suas províncias mais prósperas – a Síria, o Egipto, a Palestina e, mais tarde, o Norte de África.
Este colapso marca o fim da civilização urbana da Antiguidade. A catástrofe que foi o séc. VII tornou-se o acontecimento central da história bizantina.
Da mesma forma que para a Europa Ocidental a imagem da Roma Imperial domina toda a sua Idade Média, também a sombra do império cristão de Constantino, Teodósio e Justiniano permanece para o Império Bizantino como paradigma a atingir mas que, pressentia-se, seria sempre inalcançável.
Embora o mundo do Islão tivesse recebido a herança de Roma e também da Pérsia e, reunindo um vasto mercado comum que se estendia desde Espanha até aos confins da Índia, tivesse produzido uma civilização urbana dotada de uma vitalidade extraordinária, ainda assim, o Império Bizantino, apesar de excluído das maiores rotas de comércio internacional, e constantemente hostilizado pelos seus inimigos, foi capaz de mostrar uma grande dinâmica e ir recuperando alguns territórios perdidos.
A influência bizantina, pautada por alguma actividade missionária, irradiou até à Morávia e ao Báltico. Esta é a resenha do período médio bizantino.
A partir de 1180 (Período Tardio), o Império Bizantino começou a desmoronar-se a todos os níveis.
O contexto geográfico do império sofreu sempre constantes mutações. Importa sublinhar com veemência que nunca existiu tal coisa como uma “nação bizantina”.
À primeira vista, o conjunto de material escrito que nos foi legado por Bizâncio parece considerável mas a primeira coisa com que nos deparamos é a ausência de registos documentais e arquivísticos.
Possuímos, igualmente, uma quantidade pequena de papiro referente a Ravena, que era uma parte do Império mais marginal. Quanto ao restante resume-se a alguns arquivos monásticos pertencentes, na sua maioria, ao monte Atos e ao sul de Itália, e outros dois ou três à Ásia Menor. Isto significa que não é possível construir uma história significativa da economia do Império.
O material que temos à nossa disposição poderá ser considerado, na sua maioria, literário, na medida em que foi preservado em livros manuscritos. Apenas o material da Grécia perfaz cerca de cinquenta mil manuscritos que ainda permanecem em várias bibliotecas, remontando cerca de metade desse número à época medieval. Estes textos apresentam, estranhamente, uma qualidade opaca e, quanto mais elegante o seu registo, mais opacos se tornam. E se considerarmos o enorme volume de literatura bizantina no seu todo, chegaremos à conclusão que a realidade está distorcida.

Bibliografia: Mango, Cyril, Bizâncio, O Império da Nova Roma, Edições 70, Lisboa, 2008.
Kazhdan et alii (eds.), The Oxford Dictionary of Byzantium, Vol. I, Oxford University Press, New York, 1991.

domingo, dezembro 07, 2008

Reino Unido preocupado com o ensino do Latim

Nos últimos anos, o número de professores de Latim tem vindo a diminuir drasticamente no Reino Unido, a ponto de a Casa dos Lordes do Parlamento ter demonstrado preocupações a esse respeito, pois começa a ser cada vez mais claro que não vai haver professores suficientes para assegurar o ensino desta língua dentro de pouco tempo. Lord Faulkner demonstrou ainda preocupações acerca da alta percentagem de escolas que não ensinam Latim, apesar de este número ter vindo a aumentar. Já para o ano vai haver um estudo sobre a introdução do Latim nos currículos de línguas. É a notícia da BBC que a seguir se lê:

A decline in the number of Latin teachers poses a serious threat to the teaching of the language in schools, peers have been told.

Lord Faulkner of Worcester said he was concerned the number of Latin teachers leaving the profession each year was far outnumbering those being trained.

He urged the government to give Latin the same priority in the curriculum as modern languages to reverse this trend.

Ministers said modern languages were their priority at primary school level.

Important subject

For every 35-40 new Latin teachers entering the profession every year, more than 60 were either retiring or opting to do something else, Labour peer Lord Faulkner said in the House of Lords.

He also expressed dismay about the 85% of state schools he said did not currently teach Latin at all.

"Isn't it time that Latin was reclassified as an official curriculum language and given the same encouragement as other languages?" he told peers.

Where individual schools could not offer Latin, ministers should urge local education authorities to include the subject somewhere on their curriculum.

For the government, Baroness Morgan of Drefelin said Latin was an "important subject" and a valuable tool in helping people learn a broad range of other languages.

She said it was "worrying" if a growing number of teachers were exiting the profession, for whatever reason, every year.

The number of non-selective state schools offering Latin had doubled since 2000, she said, while there would be a consultation on Latin's inclusion in the languages diploma next year

But she stressed: "It is for schools to decide whether it should be included in the curriculum."

Figures published earlier this year showed the number of non-selective state secondary schools in England teaching Latin rose from 200 in 2000 to 471 last year.

But education specialists have expressed concerns that the rise in pupils learning the language is limited to Key Stage 3 pupils aged 12-14 and is not mirrored at GCSE and A-level.

There are also concerns about a continuing shortage in the number of postgraduate teaching colleges offering Latin courses.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Capadócia

Cento e quarenta mil guerreiros de Mitrídates do Ponto
- cavalaria, archeiros, lanças, espadas, elmos, escudos -
entram num território estrangeiro que se chama Capadócia.
O exército estende-se por muitos quilómetros. Os cavaleiros lançam
olhares lúgubres, agoirentos, em redor. Envergonhado da sua nudez,
o espaço sente que, a cada passo dos homens, o longe
se transforma no perto. Especialmente as montanhas, cujos
cumes - igualmente cansados de auroras
vermelhas, crepúsculos roxos, nuvens grossas -
ganham mais agudeza, senão nitidez, com
os olhares penetrantes dos estrangeiros. Visto de longe,
o exército parece um rio que serpenteia entre os penedos,
cujas nascente faz o que pode para não ficar muito atrás da foz,
que, por seu turno, olha de vez em quando para trás, para a nascente.
E o terreno, à medida que o exército avança para oriente,
reflectido no espelho das águas daquele rio de homens, de coisa estranha

transforma-se, por um momento, num impassível, sublime pano de fundo
da história. Trepida o solo com o estrépito de sapatas ferradas, ressoam pragas
armaduras chocalham, os estribos batem contra as espadas,
há gritaria, as lanças são floresta. De repente, o batedor puxa as rédeas
ao cavalo e estaca, pregado ao solo: realidade ou alucinação?
Ao longe, ocupando todo o campo, dum lado ao outro do planalto,
estão as legiões de Sula. Sula, esquecendo Mário,
trouxe aqui as legiões para tirar a limpo a quem,
apesar do selo da lua invernal,
pertence a Capadócia. Tendo feito alto, o exército,
toma posição para a batalha. O pedregoso planalto
parece pela última vez um lugar onde nunca ninguém morreu.
Fogueiras, gargalhadas. Cantam "A raposa caíu na armadilha".
O rei Mitrídates, reclinado numa laje lisa, tem em sonhos
uma visão irresistível: um corpo nu, seios, os húmidos caracóis da nuca.

(....)

Iosif Brodskii

Ilíada para jovens

O tradutor da Ilíada, da Odisseia, entre outros, autor dos recém-editados Novos Ensaios Helénicos e Alemães, Frederico Lourenço tinha já adaptado a Odisseia para jovens. Os Livros Cotovia anunciam agora para breve a adaptação da Ilíada para jovens feita pelo mesmo autor.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Colóquio Sociedade e Poder no tempo de Ovídio

Recorda-se, através da citação de informação recebida do Centro de História da Universidade de Lisboa, o colóquio a realizar nos próximos dias 11 e 12 deste mês:
O Centro de História da Universidade de Lisboa, através da sua linha investigação Mundo Antigo e Memória Global, em colaboração com o Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, vem por este meio divulgar o Colóquio Sociedade e Poder no tempo de Ovídio. A assinalar o bimilenário do «exílio» de Ovídio, coordenado pelos Professores Nuno Simões Rodrigues e Maria Cristina de Sousa Pimentel, e que se realizará nos próximos dias 11 e 12 de Dezembro, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A entrada no Colóquio é livre, destinando-se a inscrição, no valor de EUR 5, à obtenção do certificado de presença. Em anexo seguem cartaz de divulgação e desdobrável com o programa e boletim de inscrição. Para qualquer informação, queiram por favor contactar o secretariado do Colóquio, através do email centro.historia@fl.ul.pt.

O programa definitivo encontra-se aqui.

domingo, novembro 30, 2008

cartaz

«Morto buscava a Madalena a Cristo na sepultura, e a perseverança e amor com que insistiu em o buscar morto, foi causa de que o Senhor lhe enxugasse as lágrimas e se lhe mostrasse vivo. Grande exemplar temos entre mãos! Assim como a Madalena, cega de amor, chorava às portas da sepultura de Cristo, assim Portugal, sempre amante de seus reis, insistia ao sepulcro de el-rei D. Sebastião, chorando e suspirando por ele; e assim como a Madalena no mesmo tempo tinha a Cristo presente e vivo, e o via com seus olhos e lhe falava e não o conhecia, porque estava encoberto e disfarçado, assim Portugal tinha presente e vivo a el-rei nosso senhor, e o via e lhe falava e não conhecia. Porquê? - Não só porque estava, senão porque ele era o encoberto
Sermão dos Bons Anos, IV

sábado, novembro 29, 2008

A conquista de Tebas segundo Gus van Sant

I conquered Thebes.
When?
[Inhales deeply] Two weeks ago.
How'd you do it?
Well, I got…I did more than that, actually.I said to Gerry…[Clears throat]”I ruled this land for 97 years, and…" “…and I'd like it.”I had all the sanctuaries built, and then I…This hot lava leaked out of a volcano and half destroyed my sanctuary to Demeter, I guess it was.And…But I didn't have the marble to rebuild, like, the sculptures and that to fix the sanctuary. I had all these docks too, like, Calydon and Argos and…I had everything.Everything.I was trading with, like, 12 cities and… I had a really good army.But the river had just flooded. And it flooded out,like, four of my docks, and I couldn't import the marble to rebuild the sanctuary. Demeter got pissed off, and she made my fields infertile. And then…So I couldn't grow the grass. I couldn't grow the wheat to feed the horses. And there was no…I couldn't…And there was nowhere for the Stephens to graze.And some of my people were growing hungry and restless, and then…And I couldn't trade because the rivers had flooded.And so, Knossos, one of my vassals,got really upset with me and turned against me.And they… attacked me.And because I couldn'ttrain any sheep'cause I didn't have the wheat.I didn't have…I didn't have a, um, a…
You couldn't train sheep?
I couldn't train the horses because I didn't have wheat.And so when they attacked me,they just dogged me. And I actually went to send my army out to defend the city, and you can only send them out if you have 12 trained horses,and I had 11.So I was one horse shy…of almost saving my city.
So then you didn't really…

Oh, I had just conquered Thebes, and then that happened.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Há 2016 anos, morria o poeta Quinto Horácio Flaco.

Horácio foi "uma das mais brilhantes figuras literárias do século de Augusto", tendo desde cedo na nossa literatura influenciado diversos autores nacionais (este influxo ficou conhecido por horacianismo). "Esta influência exerceu-se, quer pela leitura directa do texto das Odes, quer pela doutrinação estética derivada da Epístola aos Pisões (...). Pode datar-se historicamente o culto pela lírica horaciana do surto erudito que leva à redescoberta das literaturas antigas e se integra no movimento geral do Renascimento." "Com o surto do Romantismo, a voga do vate latino parece entrar no seu declínio, mas não sem que surjam ainda alguns autores cuja obra é como um fruto tardio no meio das modas literárias do tempo." "A sensibilidade moderna ainda pode vibrar à leitura do texto latino e um dos nossos poetas mais intelectualizados, Fernando Pessoa, atinge no livros das Odes (...) uma sóbria e marmórea disciplina formal, em que se evidencia uma profunda assimilação dos valores estéticos, verbais e rítmicos, do horacianismo". Luís de Sousa Rebelo, A Tradição Clássica na Literatura Portuguesa (Lisboa: Livros Horizonte, 1982), 106, 109, e 110.

quarta-feira, novembro 26, 2008

Saiu o 2.º volume das Metamorfoses

Está à venda nas boas livrarias o segundo volume das Metamorfoses de Ovídio, traduzidas por Domingos Lucas Dias (Professor da Universidade Aberta e um dos tradutores do De Trinitate, de Santo Agostinho, equipa essa recentemente galardoada com o prémio de tradução científica e técnica União Latina/FCT). Sobre o primeiro volume e as impressões que me causou, ver este texto.

O segundo volume tem as mesmas características do primeiro: bilíngue (os erros que apontei no latim foram corrigidos) e notas explicativas, sendo ainda notável a fluidez literária e literal do texto ovidiano. O livro, de 24,15€, editado pela Vega, tem ainda posfácio, índice temático, índice remissivo para os dois volumes (algo que faltava no primeiro e é agora suprido), e uma linda capa azul.

Aproveito para recordar que irá realizar-se nos dias 11 e 12 de Dezembro, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o colóquio Sociedade e Poder no Tempo de Ovídio (promovido pelo Centro de História da Universidade de Lisboa e pelo Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra).

sexta-feira, novembro 21, 2008

Porquê estudar latim e grego?

À TSF vai Isaltina Martins, presidente da associação de professores de Latim e Grego:

15h-16h [esta semana o programa termina às 16h]: que sentido tem, hoje, aprender latim e grego? Há um evidente - porque comensurável - desinteresse pela aprendizagem destas duas línguas que passaram de moda, o que se reflecte no encerramento de cursos superiores e no cada vez menor número de alunos no secundário.

É com este contexto que vem ao programa Isaltina Martins, professora de latim na Escola Secundária Infanta D. Maria, em Coimbra, e presidente da Associação de Professores de Latim e Grego.

Ao longo do programa vamos ouvir alunos do secundário e da universidade que estudam latim e grego.

Mais Cedo ou Mais Tarde, hoje, depois das 3h da tarde na TSF. Pode ser ouvido mais tarde aqui e em podcast.

 

quinta-feira, novembro 20, 2008

Europa ligada pela cultura

Europeana está em linha acessível ao público.
Notícia Lusa, via Público.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Um clássico revisitado

(Ignorar por favor os fins publicitários e de incentivo ao consumo.)

Os últimos 10 anos

Está patente a partir de hoje e até 6 de Dezembro, na Sala de Referência da Biblioteca Nacional, uma mostra bibliográfica evocativa dos livros publicados em Portugal nos últimos 10 anos sobre o Padre António Vieira (edições literárias incluídas). No sítio da Biblioteca, lê-se:

No âmbito das Comemorações do IV Centenário do Nascimento do Padre António Vieira (1698-2008) e do Congresso Internacional alusivo à efeméride promovido conjuntamente pelo Centro de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pelo Centro de Estudos de Filosofia da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa e pela Cúria Provincial da Província Portuguesa da Companhia de Jesus, a realizar entre 18 e 21 de Novembro, a Biblioteca Nacional de Portugal associa-se às celebrações através da organização de uma mostra evocativa.

A presente iniciativa vem dar continuidade às comemorações do Terceiro Centenário da Morte do Padre António Vieira, ocorridas em 1997, em que esta Instituição participou, designadamente com a organização de uma exposição, a edição crítica do Livro III da Clavis Prophetarum (Chave dos Profetas) e a publicação de um catálogo que contemplou, de forma exaustiva, a bibliografia activa e passiva do Padre António Vieira até então produzida.

As obras que integram esta mostra são as mais relevantes que, entre 1998 e 2008, foram editadas em Portugal e no estrangeiro, encontrando-se integradas nas colecções da BNP ou em colecções particulares. No próximo ano, proceder-se-á à publicação de uma adenda que actualizará o referido catálogo, bem como à publicação de mais dois livros da Chave dos Profetas.

Resta-me adicionar que a Chave dos Profetas foi e continua a ser traduzida pelo Professor Arnaldo do Espírito Santo e que o volume entretanto publicado (em edição bilíngue pela Biblioteca Nacional) venceu o prémio de Tradução Científica e Técnica FCT/União Latina 2001.

Councils ban use of Latin terms

Porque há quem possa confundir "por exemplo" (e.g.) com "ovo" (egg), no Reino Unido há quem queira proibir o uso de expressões latinas em documentos oficiais. Notícia da BBC:
A number of local councils in Britain have banned their staff from using Latin words, because they say they might confuse people.
Several local authorities have ruled that phrases like "vice versa", "pro rata", and even "via" should not be used, in speech or in writing.
But the ban has prompted anger among some Latin scholars.
Professor Mary Beard of Cambridge University said it was the linguistic equivalent of ethnic cleansing.
Some local councils say using Latin is elitist and discriminatory, because some people might not understand it - particularly if English is not their first language.
Bournemouth Council is among those which have discouraged Latin. It has drawn up a list of 18 Latin phrases which its staff are advised not to use, either verbally or in official correspondence.
The council denies that it places a ban on Latin words.
A council spokesman said: "We advise against using certain words, particularly when staff are writing to those whose first language may not be English.
"The advice is intended as a guide only, not a direction."
However, the council's Plain Language Guide lists Latin under the heading "Things To Avoid".
Other local councils have banned "QED" and "ad hoc", while other typical Latin terms include "bona fide", "ad lib" and "quid pro quo".
But the move has been welcomed by the Plain English Campaign which says some officials only use Latin to make themselves feel important.
A Campaign spokesman said the ban might stop people confusing the Latin abbreviation e.g. with the word "egg".

Ouvir Peter Jones no programa Today, da BBC Radio 4.

terça-feira, novembro 18, 2008

Argos

Argos, de olhos erguidos para o céu, gemia; torrentes rolavam-lhe pelo rosto, não só de água mas (soube-o depois) de lágrimas. "Argos", gritei, "Argos!"
Então, com mansa admiração, como se descobrisse uma coisa perdida e há muito esquecida, Argos balbuciou estas palavras: "Argos, cão de Ulisses". E depois, sempre sem me olhar: "Esse cão atirado para o esterco."
Facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuirmos que nada é real. Perguntei-lhe o que sabia da Odisseia. A prática do grego era-lhe penosa; tive de repetir a pergunta.
"Muito pouco", disse. "Menos que o mais pobre dos rapsodos. Já se terão passado mil e cem anos desde que a escrevi."

Jorge Luís Borges, "O Imortal", O Aleph

segunda-feira, novembro 17, 2008

I Curso Livre Sexualidade & História

Dando continuidade à investigação da temática iniciada pelo congresso sobre a Sexualidade no Mundo Antigo, o Centro de História da Universidade de Lisboa (CHUL) promove o I Curso Livre Sexualidade & História, coordenado pelos Professores António Ventura e Nuno Simões Rodrigues. Eis algumas informações (dadas pelo CHUL) sobre o evento:
O Curso consta de dez sessões, abrangendo uma ampla diacronia e uma multiplicidade de abordagens, e decorrerá semanalmente, todas as quartas-feiras, das 18h às 20h, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo o seu início a 7 de Janeiro de 2009 e término em 11 de Março de 2009. A inscrição importa no valor de 100 EUR, sendo de 80 EUR para alunos da Faculdade de Letras.

Calendário e títulos das sessões:
7 de Janeiro: “Roma e a sua Moral da violação”, pelo Prof. Doutor Júlio Machado Vaz.
14 de Janeiro: “Na Pré-História do sexo: entre a natureza e a cultura”, pelos Prof.s Doutores João Pedro Ribeiro e Mariana Diniz.
21 de Janeiro: “Assim na terra como no céu: a sexualidade no Antigo Egipto”, pelo Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo.
28 de Janeiro: “A sexualidade no Oriente pré-clássico e bíblico”, pelos Professores Doutores José Augusto Ramos e Francisco Caramelo.
4 de Fevereiro: “Eurídice é morta. Parafilias e suas representações na mitologia grega”, pelo Prof. Doutor Nuno Simões Rodrigues.
11 de Fevereiro: “O corpo e a sexualidade: entre Mouros e Cristãos”, pela Prof.ª Doutora Maria Filomena Lopes de Barros.
18 de Fevereiro: “Sexualidade na Idade Média: o «fruto permitido» e o «fruto proibido»”, pela Prof.ª Doutora Ana Maria Rodrigues.
25 de Fevereiro: “Filhos da castidade e do pecado. Afectividade e enjeitamento na antiga sociedade portuguesa”, pela Prof.ª Doutora Maria de Fátima Reis.
4 de Março: “De Eva a Dánae: representações da sexualidade na Arte”, pelos Prof.s Doutores Vítor Serrão e Luís Urbano Afonso.
11 de Março: “Sexualidade na época contemporânea: literatura licenciosa portuguesa dos séculos XVIII e XIX”, pelo Prof. Doutor António Ventura.

domingo, novembro 16, 2008

Mensagem Telegráfica

Dia 7. Igreja de S. Roque. Às 19 h.
Luís Miguel Cintra dirá um sermão de padre António Vieira.
Entrada Livre.

sábado, novembro 15, 2008

Brevíssimo curso de literatura grega e latina


Já aqui se falou nisto, mas é sempre bom recordar: no âmbito das comemorações dos 20 anos da Cotovia, decorre amanhã o "Brevíssimo curso de literatura grega e latina", com Delfim Leão, Frederico Lourenço e Paulo Farmhouse Alberto. O evento tem lugar na sala Jorge de Sena do CCB, das 11h às 13h e das 15h às 17h.

Habemus magistrum

Quero dar os parabéns ao meu parceiro de blogue, o Ricardo, que é o mais recente Mestre em Estudos Clássicos da FLUL, e que desafio para nos deixar aqui um resumo da sua tese.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Roma no Google Earth

Poucas pessoas desconhecerão a ferramenta Google Earth, que permite ver o mundo a partir de imagens de satélite e, em alguns sítios, em três dimensões. Agora, um desses sítios 3D é a Antiga Roma, como noticiado pela BBC. A conhecer aqui.

sábado, novembro 01, 2008

Ilusão cultural

Cita-se, a partir do De Rerum Natura, o artigo que Helena Matos assinou no Público do dia 28 de Outubro. Os sublinhados são meus.
Até que a casa caia
Nos últimos anos, nos ensinos básicos e secundário, institucionalizou-se uma espécie de loucura pedagógica. As disciplinas onde se transmitem saberes foram perdendo importância. Se eram difíceis, tornavam-se fáceis ou dispensáveis, como agora se viu com a Matemática. Simultaneamente todos os dias se repetia (e repete!) que os conteúdos têm de ser apelativos, pois supostamente o ensino deve ser lúdico e os alunos devem aprender sem esforço. À conta desta política de promoção do sucesso, entra-se em Engenharia sem ter estudado Matemática e a disciplina de Química corre o risco de desaparecer no ensino secundário porque os alunos não a escolhem. Idem para o Latim e para a Filosofia. Adeus equações, declinações e pensamento racional. Estuda-se um bocadinho de Psicologia e o resultado é o mesmo. Uma vez na faculdade, logo se vê. E se os engenheiros ainda vão estudando Matemática durante o curso — embora não a suficiente, porque mais de metade dos licenciados pelos 316 cursos de Engenharia existentes em Portugal chumbam no exame que a Ordem dos Engenheiros exige para o exercício da profissão — no caso dos antigos cursos de Letras, transformados cada vez mais numa versão literária das antropologias e sociologias, corre-se o risco de ver desaparecer os departamentos de Estudos Clássicos.


Noutras disciplinas, como a Física, baixou-se o nível de exigência nos exames nacionais de modo a que as estatísticas melhorassem. Mesmo nas línguas estrangeiras a opção pelo que se acha mais fácil pode levar a que se troque o francês pelo espanhol. A memorização tornou-se uma expressão maldita e arreigou-se a convicção de que o saber nasce das entranhas das crianças num fenómeno equivalente à intervenção do Espírito Santo que fez dos Apóstolos poliglotas. Os desaparecidos Trabalhos Manuais e Oficinais deram lugar às doutas tecnologias e áreas disto e daquilo, sendo que nestas disciplinas os alunos tanto podem levar o ano a fazer caixinhas de papel tipo pasteleiro, pintar cartazes para salvar a água, estudar, com detalhe, nas etiquetas da roupa a simbologia do torcer e lavar a seco, confeccionar bolos com pouco açúcar ou usar abundantemente as teclas “seleccionar-copiar-colar” da sala dos computadores. E para quê queimar as pestanas a estudar Química? Não existe, em alternativa, uma panóplia de disciplinas muito mais fáceis que, diz o “pedagoguês”, desenvolvem “novas competências e dinâmicas de interactividade”? Quanto aos professores, sobretudo com o actual modelo de avaliação, é sem dúvida bem mais fácil e propiciador de sucesso na carreira ser “ensinante” de Área de Projecto, nas quais os alunos invariavelmente obtêm melhores resultados, do que meter mãos à tarefa de dar aulas de Física ou Matemática.


A degradação do ensino não começou com este Governo. O que este Governo trouxe de novo foi a capacidade de transformar essa degradação, que os anteriores procuravam negar, num sinal de modernidade e progresso. Entrar em Engenharia sem ter feito exame a Matemática deixa de ser uma aberração e passa a “inovação”. Os conteúdos não contam, o que conta é o embrulho tecnológico com que chegam às mãos dos alunos. O Ministério da Educação há muito que vive num universo de ficção. O que Maria de Lurdes Rodrigues conseguiu foi que assumíssemos que essa ficção é do domínio do grotesco e que já não nos indignemos com isso.


Devo ainda acrescentar que nas faculdades de Letras os cursos de literatura estão a ser substituídos por cursos de “ciências da cultura”… Mas não nos iludamos com a nomenclatura. O fim da interpretação e da reflexão sobre textos literários é o início dos estudos de abrangência falsamente cultural onde nada se aprofunda e de tudo pouco se sabe.